sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Memórias de quem chegou até aqui, e vai muito além...

Um dia me perguntaram por que escolhi ser professora. Acredito que não se escolhe ser professor - se é. 

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Ser filha de Pedagoga, irmã de professora de Língua Portuguesa, e cunhada de professor de Biologia talvez sempre tenha influenciado minha carreira acadêmica e minha escolha profissional. Mas este é apenas um dos motivos que me fez o que sou hoje: Professora. Disse o poeta-educador: “Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo.” (Paulo Freire). A partir dessa frase, creio que para justificar meu destino profissional, talvez deva primeiro relatar um pouco da minha história de vida, visto que a História também são as pequenas Histórias humanas, constituídas de sonhos, construções, experiências, expectativas, frustrações e aprendizado. Considero importante falar das minhas vivências, do meu lugar no mundo, das minhas histórias, pois acredito que a sociedade em que vivemos é nosso grande meio influente, que desenha em nós traços de nossos gostos, escolhas e experiências. A seguir um pouco da minha vida através do Ensino:
Nasci e cresci no interior de São Lourenço do Sul, numa localidade chamada Santa Augusta. Santa Augusta fica há 52 km da cidade, afastada de quase tudo, num local onde os primeiros vizinhos encontram-se há quase um quilômetro. Meu pai, com a 5ª série completa, até alguns anos trabalhava como Instrutor em uma empresa fumageira. Minha mãe é professora de séries iniciais, hoje está a um ano da segunda aposentadoria, e há um ano realizou o sonho de terminar o 3º grau. Formou-se em Pedagogia, com 42 anos de experiência em sala de aula. Com certeza minha mãe foi uma das grandes incentivadoras que desenvolveu em mim o gosto pelo Ensino. À frente da minha casa, no interior, há um prédio onde funcionava a Escola de Ensino Fundamental Incompleto Marechal Hermes, onde minha mãe lecionou por 40 anos, para 5 séries. Além de dar aulas, ela também era merendeira, faxineira e diretora. Cresci dentro da escola, vendo minha mãe nesta rotina. Com 5 anos já sabia ler e escrever. No ano de 1994, com 7 anos, ingressei na 1ª série na Escola Municipal Marechal Hermes, onde permaneci até a 4ª série, e tive como professora a minha mãe. No mesmo ano que concluí a 4ª série, suspenderam a 5ª série na Escola Marechal Hermes, então para poder seguir estudando eu teria de ser matriculada na Escola Municipal Marechal Deodoro, na Localidade de Canta Galo – 7º distrito de São Lourenço, que era a escola de ensino fundamental completo mais próxima à minha casa, e tinha transporte gratuito (minhas duas irmãs mais velhas, por na época em que concluíram a 5ª série não terem opção de transporte gratuito para a Escola Marechal Deodoro, acabaram por estudar a muito custo - pois o transporte era pago - na Escola Estadual Rodolfo Bersch, na localidade de Boa Vista – 6º distrito, até concluírem o Ensino Fundamental).
A partir daí a minha vida mudou. Eu tinha que pegar ônibus todos os dias, às 11:00h, para chegar na escola às 13:30h. O ônibus passava por várias localidades, recolhendo muitos estudantes até chegar na escola. Mas eu não podia reclamar, o ônibus passava em frente à minha casa, enquanto outros estudantes muitas vezes precisavam caminhar quilômetros, no sol ou na chuva, até a parada do ônibus. Além disso, o transporte era precário: havia mais estudantes de pé do que sentados, nos espremíamos nos corredores. Lembro que o ônibus não tinha nem porta traseira: no local dela havia estacas de madeira para cobrir o buraco, e um pneu grande, para não permitir nosso alcance. Vidros quebrados, buracos no teto, nos dias de chuva, muitas goteiras, nos dias de sol, o calor infernal do sol batendo no rosto, pois não havia cortinas. E o cheiro de mofo das esponjas amareladas que saíam dos buracos nos bancos. Mas a vontade de estudar era maior e aquilo era uma aventura. Estrada de chão, muitos buracos e nos dias de chuva, nas subidas, muitas vezes o ônibus atolava e éramos nós, as crianças, que devíamos empurrar o ônibus para ajudar o motorista a tirá-lo do barro.
Mas a escola trazia a recompensa: Eu que estava acostumada a estudar com mais três turmas numa mesma sala de aula, e ter que dividir a professora, agora tinha uma sala de aula só para a minha turma, e um professor para cada matéria. Meus professores eram ótimos. Na 5ª série tive minha primeira aula de História, com a professora Verena Klumb. Na 6ª série, as aulas de História eram com a professora Dalva Shuch, na 7ª, com a professora Vera Lucia Souza, e na 8ª com a professora Loni Tessmer Hax. Todas me inspiraram e me despertaram o gosto pela História. Na verdade eu admirava todos os professores, pois eles vinham da cidade para a colônia, todos os dias, e passavam por todos os desafios que nós, os estudantes passávamos. O maior dele, com certeza, era a distância.
Quando minhas irmãs concluíram o Ensino Fundamental, tiveram que ir morar na cidade, na casa de parentes, para fazer o Ensino Médio. Mas no mesmo ano que me formei no Ensino Fundamental, a Escola Estadual Rodolfo Bersch, passou a oferecer o Ensino Médio. Meus pais, no desejo de me manterem em casa por mais algum tempo e não terem tantos gastos me matricularam na Escola Rodolfo Bersch.
Durante o primeiro ano do Ensino Médio, eu ia para a escola num ônibus que fazia linha até a cidade - o “colegial” – assim conhecido porque além de transportar colonos, levava estudantes até a vila Boa Vista. O ônibus passava em frente à minha casa às 11:15h e chegava à Boa Vista às 12:00h. Então devia esperar uma hora e meia, até às 13:30h, quando iniciava a aula. No ano seguinte a Escola Rodolfo Bersch conseguiu através da Prefeitura, transporte gratuito aos estudantes no período da manhã, então no segundo e terceiro ano do Ensino Médio a rotina passou a ser diferente: Eu e meu irmão (que neste ano começou a frequentar o primeiro ano do ensino médio) levantávamos as 4:30h da manhã, pois o ônibus passava às 5:00h na frente da nossa casa. Viajávamos três horas até chegar à escola, às 8:00h da manhã. O ônibus passava no interior de três municípios para recolher estudantes: São Lourenço do Sul, Camaquã e Canguçu, retornando a São Lourenço, para enfim chegar à escola. Ver o sol nascer pela janela do ônibus todos os dias era lindo! No inverno, a neblina entre os vales dos serros no Faxinal, cobertor e chimarrão. Quando chegávamos à escola, às 8:00h, eu estava com fome e sentia sono. Mas o retorno era mais difícil: as aulas terminavam às 12:00h, isso significava passar três horas no ônibus, e chegar em casa às 15:00h para então almoçar, pois se na ida era a primeira a embarcar, na volta era a última a descer. Mas me formei. Eu, meu irmão, e outros tantos colegas nossos. Em 2004 eu terminei o Ensino Médio. Mas a vida dentro de um ônibus não pararia por aí: em 2006, quando meus pais puderam me pagar um curso pré-vestibular, fui morar na cidade de São Lourenço e passei a viajar para Pelotas todos os dias, a fim de me preparar para ingressar na Faculdade. No ano seguinte passei no vestibular, e a partir daí foram mais 4 anos fazendo o trajeto São Lourenço do Sul – Pelotas, Pelotas – São Lourenço do Sul, todos os dias. Uma hora e meia de ida, uma hora e meia de volta. Sair de Pelotas às 22:30h e chegar em casa às 00:00h, todos os dias. No último ano de faculdade, a rotina de viagens para terminar a graduação acabou pois morei durante o ano em Pelotas, e isso facilitou um pouco meus estudos.
Depois de 12 anos viajando para poder enfim concluir um sonho: poder exercer a profissão de professora, eu olho pra trás e vejo que todo o esforço valeu. Sei que muitos colegas do fundamental e do médio perderam o estímulo no meio da caminhada. Desistiram dos seus sonhos, talvez pelas dificuldades encontradas por quem mora no interior, para seguir com os estudos. Quando olho pra trás também tenho certeza que a vontade de lecionar veio do apoio que sempre tive da minha mãe, minha primeira professora, e dos meus demais professores, que se esforçaram para levar aos lugares mais distantes o aprendizado, mesmo quando as dificuldade eram enormes.
Hoje me causa indignação o fato de tantos jovens não darem valor ao estudo. Não respeitarem seus professores, depredarem suas escolas. Não valorizarem as oportunidades. Estamos numa época em que as dificuldades para ter acesso ao ensino têm diminuído gradativamente através de programas governamentais e sociais que disponibilizam com maior facilidade o acesso ao aprendizado, por isso acho que muitos não dão o valor devido ao ensino. Creio também que um futuro melhor só se constrói com ensino e que eu, como professora de História, poderei conscientizar de uma forma positiva os meus alunos, incentivá-los a pensar, a refletir, a questionar.
Espero poder também colaborar para que o ensino volte a ser valorizado. Para que o professor volte a ser valorizado, e para que os jovens possam, assim como eu, se inspirar em seus mestres, e ao mesmo tempo não encontrem as dificuldades que encontrei para estudar.
Um último aspecto: considero que a escola, em primeiro lugar, é local de ensinar e aprender, de trocar conhecimentos e que a educação, por assim dizer é papel dos pais, que há muito, tem relegado esse papel aos professores. Mas é claro que os mestres devem estar conscientes de que são “espelho” aos seus alunos, e por isso, devem agir com responsabilidade, a fim de ser exemplo de boa educação e fonte de conhecimento.

“Só a educação Liberta” [Epicteto]

Um comentário:

  1. Nossa, você conseguiu transformar cenários que em primeiro momento são um pouco assombrosos em pura poesia... adorei esse olhar... estou no caminho de me formar em História e pretendo trabalhar no interior do país, onde educadores realmente fazem a diferença. É muito legal encontrar pessoas interessadas em lecionar por lecionar e fazer a diferença... adorei saber da sua existência! Vou te seguir por aqui... até mais!!!

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