quarta-feira, 6 de novembro de 2013

O VANDALISMO NOSSO DE CADA DIA

Durante o episódio do descarte de acervo da Biblioteca Pública Pelotense, em que centenas de páginas da nossa história foram parar no lixo, ninguém falou em vandalismo e ninguém foi preso. A população não "caiu em cima" dos responsáveis pelo descarte, talvez por ignorância e desconhecimento de que aquela porção do que muitos consideram "papéis velhos" também era patrimônio público sendo destruído. Hoje, ao ver a ira da população revoltada contra quem chamam de "vândalos" por colocarem fogo nas cabines do pedágio, pergunto-me: será que as pessoas sabem realmente o valor das coisas ou será que encontram valor somente naquilo que lhes é de interesse e conhecimento? Será que as pessoas realmente sabem diferenciar os diversos tipos de patrimônio? E ainda que saibam diferenciar, será que elas têm a real consciência de que muitas vezes, os atos a que chamam superficialmente de "vandalismo", são apenas reflexos mais nítidos e acentuados de seus próprios atos no dia a dia? Também somos vândalos, meus caros, cada vez que desperdiçamos água, também somos vândalos cada vez que pagamos por um Iphone fabricado por crianças que recebem 70 centavos por dia, após trabalharem 16 horas. Também somos vândalos quando resolvemos que mulheres são vadias quando usam roupa curta, trabalham fora, se sustentam e são donas de suas próprias vidas. Também somos vândalos quando preferimos passar a responsabilidade da educação de um filho à escola ou à outras pessoas. Somos vândalos quando resolvemos que temos capacidade de julgar e decidir sobre a moral e a sexualidade dos outros. Também somos vândalos, quando assumimos uma postura racista e preconceituosa. Somos vândalos inclusive, quando não respeitamos as filas, os assentos de ônibus e as vagas no estacionamento destinadas à pessoas com necessidades especiais. Somos vândalos quando ingerimos bebida alcoólica e pegamos o volante, ou quando não respeitamos o espaço alheio, obrigando os vizinhos a escutar nossas músicas. Também vou mencionar aqui, o vandalismo causado pelo descaso na hora de pensar o voto, ou no vandalismo de aceitar, através do "tapinha nas costas" ou "apadrinhamento", passar na frente de quem batalhou e tem mais capacidade intelectual e vontade, na disputa por um cargo público. E vou mais além: vou vandalizar os espaços públicos e privados, nos quais ainda vigora o velho ditado do "manda que pode e obedece quem tem juízo". Na verdade, manda quem tem dinheiro, e obedece quem precisa se sujeitar a quase tudo, até mesmo, vender a alma para o diabo ou em nome de um deus, para obtê-lo. Vândalos somos todos. E também somos vandalizados. E nesse círculo vicioso, necessitamos de um algoz que reflita de forma desfocada, um tanto da culpa que temos por nos vendermos a cada dia, aos falsos padrões, às normatizações de conduta inspiradas no patriarcalismo e intolerância e à incessante busca pela (falsa) liberdade, através da submissão ao dinheiro. Agora lhes pergunto, afinal, qual o nosso maior patrimônio? Será que sabemos ou será que já vandalizamos, inclusive, nossos valores?

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