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sábado, 17 de setembro de 2011

Questões sobre História Contemporânea - OSWALD, Tamara

1. Em relação ao texto Século XX: uma biografia não autorizada de Emir Sader comente como o século se anunciava, ressaltando a questão capitalismo/socialismo.
Emir Sader em seu texto Século XX: uma biografia não autorizada diz que havia indícios, desde final do século XIX, de que o socialismo passaria a fazer parte da agenda política do século XX e afirma: “O século XX se anunciava como um século do socialismo e terminava com a consolidação da hegemonia do capitalismo, e em sua forma mais selvagem – ideologia norte-americana, neoliberalismo econômico, dominação do capital especulativo, do consumismo, do egoísmo, da predação ambiental.”

Segundo ele, um dos indícios era a evolução do capitalismo. A era do capitalismo liberal havia dado lugar à fase imperialista, onde as potências (Inglaterra, França, Rússia, Alemanha, EUA e Japão) passaram a disputar entre si tanto no setor econômico quanto no militar, a repartição do mundo. Havia, conseqüentemente, uma grande possibilidade de enfrentamento militar. Ao mesmo tempo, as guerras coloniais da segunda metade do século XIX, haviam feito aflorar um sentimento nacionalista que tornaria mais complexa a dominação colonial e imperialista. O liberalismo e suas contradições geradas pela revolução industrial, fez com que o socialismo e o capitalismo ficassem frente a frente, anunciando um duelo de gigantes, e as próprias contradições do capitalismo tornariam esse sistema limitado.
Sader fala também da contradição existente, pois era um século previsto como do socialismo, mas combinou desenvolvimento tecnológico com concentração de renda e também o debilitamento dos laços de sociabilidade com hegemonia dos grandes meios audiovisuais de caráter monopólico, traços do sistema capitalista. Segundo Hobsbawn, a batalha dos sistemas capitalista/socialista ficou personificada pelo enfrentamento dos EUA/URSS.
Para concluir, o autor diz que ao contrário do que se supunha, a história do século XX acabou por ser a história do capitalismo. Também diz que uma das lições do século XX é que não há um destino pré-determinado na história humana. Os sistemas capitalista/socialista estão em transição, onde é equivocado dizer que humanidade caminha para o socialismo, assim como é equivocado dizer que a humanidade está condenada ao capitalismo. Tudo dependeria de como o homem deseja fazer a história a partir das condições culturais e materiais que encontra.

1.a. Qual o papel da Inglaterra no início do século XX? Foi um começo com paz para os ingleses?

O século XIX, havia sido para a Inglaterra um século promissor, de sucesso econômico e grande expansão. Já no início do século XX, a Nigéria era incorporada como protetorado britânico. Mas na África do Sul, a situação era tensa: Os britânicos travavam a Guerra dos Bôeres, em disputa com os colonos holandeses, emigrantes alemães, escandinavos e protestantes expulsos da França. A anexação do Transvaal havia sido motivo de descontentamento dos bôeres, que se rebelaram contra um comboio militar britânico. Era a guerra de uma potência imperialista contra a reação à sua dominação. Apesar da nomeação de um novo chefe de comando para forças britânicas na África do Sul, os britânicos sofreram várias derrotas. A guerra que estendeu-se por um longo tempo tem seu fim anunciado pela imprensa em setembro de 1900, e acabava por ser a mais custosa para os ingleses: as notícias eram de 11 mil soldados mortos pela guerra e doenças na África do Sul. Logo após a divulgação das baixas de guerra, afirma-se ao contrário dos noticiários, que os combates continuavam e a Inglaterra envia mais de 30 mil homens para a região do conflito.
Depois de vários conflitos, em 1902, os bôeres se renderam e os britânicos puderam celebrar a vitória. No entanto, o saldo de perdas na guerra anunciava os sinais da decadência da Inglaterra. Apesar disso, a guerra dos Bôeres e as dificuldades britânicas diante dela não foram grandes referências nos livros de História, que deram maior ênfase à morte da rainha Vitória como evento maior da passagem do século.

Em relação ao papel da Inglaterra no início do século XX, pode-se dizer que esta, juntamente com os EUA, a Rússia, a Itália e o Japão, enviou tropas para a China para disciplinar a rebelião dos “punhos fechados” ou “boxers”, (chineses nacionalistas e praticantes de artes marciais) que ameaçavam a vida dos estrangeiros residentes que estavam sofrendo constantes ameaças. Em julho os aliados invadiram Pequim. Em outubro de 1900, a Grã-Bretanha juntamente com a Alemanha compromete-se com a manutenção da política de portas abertas na China. Em 1902, é a vez de o Japão assinar um acordo com a Grã-Bretanha para defender os interesses dos dois países na China e na Coréia. Com a ascensão dos EUA, a Inglaterra assina com os norte-americanos um acordo para a construção de um canal centro-americano passando pela Nicarágua.
Podemos dizer que o início do século XX foi um século que demonstrou a fragilidade da Inglaterra perante suas zonas de influência e perante as novas potências imperialistas que surgiam no horizonte capitalista.

2. No que se refere à Revolução Russa de 1917 disserte sobre a organização político-partidária na Rússia anteriores a 1917 e sobre qual o papel da burguesia.
Através da leitura do texto de Marc Ferro, “A Revolução Russa de 1917”, podemos afirmar que os revolucionários russos estavam divididos entre si desde 1905, mas o povo possuía ódio dos seus dirigentes e desejavam derrubar o tzarismo. Quanto às organizações revolucionárias, primeiramente elas eram divididas em ocidentalistas e eslavófilos. No século XIX, os marxistas defendiam a fase do capitalismo e os populistas queriam a passagem direta ao socialismo: “Essas divergências tinham graves implicações sobre o plano de ação; para os marxistas, o futuro da revolução repousava na classe operária em formação; os populistas contavam com os camponeses, já iniciados no socialismo graças à existência de instituições de caráter coletivo, como o mir. Os marxistas deixaram o movimento Narodnaja Volja assim que lhes pareceu terem fracassado completamente os métodos específicos russos como o terrorismo, o movimento em direção ao povo. Daí por diante cada facção iria seguir caminho diferente (1883).”
Em 1905 se constituem duas novas organizações socialistas: os social-democratas e os socialistas-revolucionários. Os revolucionários estavam confusos com as incertezas sobre a formação de uma classe operária, o desenvolvimento do capitalismo na Rússia e a questão da burguesia que deveria fazer o combate político para derrubar o tzarismo. Para o partido social-democrata a classe operária deveria ser educada e preparada para a revolução.
A unificação desses revolucionários era imprescindível, tanto que Lenin escreveu “Que fazer?”, uma obra que determinaria o futuro do movimento operário. Deveria ocorrer uma unificação e um aumento nos efetivos para criar uma maioria que tomasse o poder na Rússia, ao mesmo tempo em que deveria constituir-se um partido de revolucionários profissionais. Em 1903 a maioria dos partidários se constituía numa formação política separada, os chamados “bolcheviques”, enquanto L. Martov e P. Axelrod tornaram-se líderes da minoria denominada “mencheviques”. Mais tarde, as concepções de Lenin trariam a divisão dos partidos marxistas em socialista e comunistas.
Em 1905, bolcheviques e mencheviques tiveram divergências na organização do partido social-democrata e nos seus objetivos e táticas. Essas divergências foram se agravando até 1917. Os bolcheviques desejavam um governo provisório para promover uma ditadura revolucionária e democrática do campesinato, etapa necessária, segundo eles, para a instituição de uma república socialista. As reformas de Stolypine haviam feito surgir uma classe de pequenos proprietários de terra, o partido socialista popular.
Os anarquistas também se dividiam em grupos rivais, com interpretações de ensinamentos de Bakunim e Kropotkine, e condenavam os partidos políticos. Militavam no meio de sindicatos e cooperativas.
Com a 1ª Guerra Mundial, houve nova divisão entre os revolucionários, boa parte dos mencheviques defendia a guerra, ao mesmo tempo em que parte dos mencheviques, anarquistas e bolcheviques, internacionalistas, condenavam a guerra.
Quanto ao papel da burguesia, esta possuía um histórico de debilidade pois não foi capaz de fazer as reformas necessárias para que o país pudesse se democratizar, modernizar e se desenvolver economicamente. A Rússia ainda possuía vestígios do feudalismo, era metade império e metade colônia. Ao passo que era necessária uma ação revolucionária auxiliada pela burguesa para promover a mudança de regime pela luta contra o tzarismo. Ao mesmo tempo em que a burguesia necessitava desse impulso para desenvolver a economia e lutar contra o regime, ela tinha medo da revolução.

2.a. Faça comentários sobre as seguintes passagens:

“Pouco a pouco, a administração, impotente para frear o movimento, se via despojada de suas funções (...) todas as profissões se organizavam (...). Sem o saber, os russos começavam a governar-se.” (Marc Ferro)
Este trecho mostra claramente os processos que estavam acontecendo na Rússia antes da revolução. A população estava insatisfeita com o rei, com as condições de vida e com as perdas na guerra, ao passo que a burguesia, os profissionais e a população do campo e da cidade começariam a se organizar na tentativa buscar soluções e participação nas decisões do governo.
Nicolau II tinha aversão pelos negócios públicos, e para estes, contava com sua esposa Alexandra que gostava de política e era mais firme que o marido, porém era impopular, não tinha a confiança dos russos. O rei era, na verdade, um preguiçoso. Mandou atirar sobre o povo que havia se revoltado contra ele. A sociedade, insatisfeita, reagiu criando associações particulares de interesse público. Um dos grandes exemplos desse tipo de associação foi o comitê da Cruz Vermelha. Quanto às vitorias na guerra, essas eram indiferentes para a opinião pública. A burguesia mostrava vitalidade, o que levou o governo a olhar suas iniciativas com desconfiança. A administração havia perdido o poder para as organizações profissionais (industriais, médicos, estatísticos, etc.). Ainda não havia a consciência de uma revolução, mas os fatos demonstravam que ela estava próxima., pois o exército, os produtores e consumidores começaram a governar-se. A própria Duma começou a entrar em comitês e associações em 1914, tentando interferir nos negócios do Estado, mas Goremykine não aceitava esse tipo de ação. Para Miliukov: “Ou o governo nos está escondendo a verdade, e nesse caso está enganando; ou está cego, e isso é sinal de sua incapacidade.”. A Duma acabaria por ter papel importante na queda do regime.

“Decomposição acelerada das Forças Armadas. Poder na rua. Desagregação geral. Profundo cansaço. Desgaste generalizado. Tempo de radicalização. Foi-se a atmosfera do congraçamento de fevereiro, em que era possível sonhar num futuro risonho e fraternal. Agora é fratura em vez de continente. Divisão no lugar da harmonia. Caos e não ordem.” (Daniel Aarão)
A passagem acima descrita demonstra claramente todo o processo da revolução de 1917, o ano que ficaria conhecido como o ano vermelho, num período que foi de fevereiro a outubro, quando inicialmente o governo cairia pelas mãos populares, e após oito meses de disputa de poder e conflitos, acabaria por ter seu comando tomado pelos Bolcheviques.
Em 1917, cinco dias de movimentos sociais em Petrógrado conseguiram derrubar a dinastia. Veio a Revolução. Uma revolução anônima, sem lideres ou partidos dirigentes. A palavra era concedida a todos que quisessem dela dispor. O poder saiu dos palácios e prédios públicos e se fragmentou. O governo provisório queria estabelecer a ordem para promover a reforma. O ano de 1917 seria um ano de contrastes. Em março foi realizado o primeiro congresso de camponeses na Rússia. Em junho os sovietes urbanos, soldados e operários realizaram seu primeiro congresso. Aumenta o número de agências administrativas. Em julho, os esforços foram para salvar os soldados na guerra, mas foi um fracasso, virando morticínio e debandada, e muitos ministros se demitiriam para livrarem-se das responsabilidades. Os bolcheviques são acusados de tentativa de golpe, então veio a crise de agosto. O governo procurou apoio nas forças conservadoras e convocou uma Conferência de Estado em Moscou, com uma minoria de deputados sovietes. Então os sovietes constituíram uma frente de defesa da revolução reabilitando os bolcheviques, que pareciam liquidados, ao mesmo tempo em que o movimento camponês invadia e tomava terras. Então o governo tentou a última cartada: a Conferência Democrática ou pré-parlamento
Os sovietes, descontentes e exigentes, com o apoio popular, deveriam assumir todo o poder: era o processo de bolchevização. Finalmente o marxismo havia triunfado, e os bolcheviques tomariam as rédeas da revolução.

3. “Em menos de um ano, a Espanha avançara mais no caminho da modernidade do que em dois séculos anteriores. No entanto, rápidas mudanças em período tão curto causaram profundos traumas na tradicional estrutura da sociedade.” (Francisco Salvadó)
Com a sua opinião explique se você concorda com a afirmação do autor, e com base na citação explique o que não deu certo no período republicano espanhol que acabou levando-os a uma guerra civil.

Com base na leitura do Texto “A Segunda República, uma breve experiência de democracia”, posso afirmar que o período republicano espanhol, definido pelo autor como “Lua de Mel”, sem dúvida foi um período de grandes mudanças em relação aos séculos anteriores, mas como ele mesmo explica, a república foi proclamada num período de dificuldades no mundo, num momento ruim, onde as condições externas aliadas as dificuldades internas acabariam por retratar o insucesso deste processo, que não pode se desenvolver de forma que satisfizesse os espanhóis.
Foram feitas diversas propostas de reformas, que muitas vezes não foram colocadas em prática por falta de recursos financeiros. A república reformista era mal vista pelas classes ricas, pelo exército e pela Igreja, pois ameaçavam sua hegemonia econômica e social, e isso acabava por inviabilizar a implementação da legislação, já que o poder econômico e social permanecia nas mãos das estruturas tradicionais.
Apesar disso, agora o Estado estava nas mãos de uma nova classe governante, que tinha por objetivo imediato destruir os laços monarquistas e eclesiásticos que transformava os espanhóis em “súditos” ao invés de “cidadãos”.
Muitas reformas foram realizadas, e sem dúvida, uma das principais foi tirar das mãos do Clero a educação pública. Mas apesar desse avanço cultural, o que o povo necessitava com mais urgência era de pão e trabalho. Os republicanos também queriam transformar as Forças Armadas em uma instituição obediente ao Estado, que fosse defensora da ordem constitucional da Espanha. O Psoe preocupava-se com a questão social, melhorando os salários e as condições de vida dos trabalhadores. O salário real chegou a subir 16%, e agora, os trabalhadores teriam direito a greve sem colocar em risco seus empregos. A terra também deveria ter seu cultivo obrigatório.
Essas e outras reformas rápidas levaram ao descontentamento tanto por parte do Clero, que se viu ameaçado diante dos Republicanos que o confrontavam diretamente, das Forças Armadas, que queria ser uma instituição independente, dos donos de negócios, que se viam ameaçados, pois os lucros eram baixos e os salários eram altos, e dos proprietários de terra, que viam-se obrigados a contratar trabalhadores estrangeiros pois a mão-de-obra nacional estava extremamente cara. Todas essas condições acabaram por levar a Espanha à uma Guerra Civil, pois as reformas haviam sido feitas de forma muito rápida e brusca e os partidos republicanos ainda eram frágeis, resultando na instabilidade política.

4. Daniel Aarão salienta que depois de Staligrado a Segunda Guerra tinha mudado de rumo: “O começo do fim da besta nazista”. Por que? Qual a interpretação do autor em relação a participação da URSS na guerra?
Segundo Aarão, a batalha de Stalingrado foi o maior entrevero da Segunda Guerra Mundial. Não havia sido um enfrentamento entre dois exércitos regulares apenas, ou entre duas propostas de sociedade, mas foi uma guerra pela sobrevivência. Os russos, que já haviam lutado contra as forças nazistas em Leningrado e em Moscou, de uma forma heróica, tendo suas cidades em ruínas e sua população dizimada, agora davam o sangue para defender Stalingrado. Se perdessem Stalingrado, os russos sabiam que estariam perdidos, ao passo que os alemães, em caso de derrota, teriam que voltar à Berlim sem retorno, conhecendo o outro lado da moeda, que estavam acostumados a oferecer aos povos que dominavam. Na batalha, ambos os lados utilizaram todos os recursos disponíveis. Milhares de homens, mulheres e crianças transformando a cidade num verdadeiro inferno: chamas, fumaça, fedor, explosões ensurdecedoras. Cada casa, fábrica e terreno era motivo de disputa, conquista e reconquista. Até mesmo os animais haviam fugido da cidade, restando apenas alemães e russos. No início de 1943, quando os russos finalmente venceram, fizeram cem mil prisioneiros alemães, além de se apoderarem de armamento e munições. Depois de Stalingrado, em julho de 1943, a nova batalha adentrou às linhas alemães, o arco de Kursk. Enfrentaram-se até a exaustão, até que os russos venceram novamente, destruindo as últimas ilusões de um triunfo nazista. Depois de Kursk o exército soviético transformou-se numa espécie de rolo compressor, avançando estrategicamente para reconquistar seus territórios: Sebastopol que levara 220 dias para cair, foi reconquistada em apenas 5 dias. Já era clara a fragilidade nazista. Depois veio a penetração russa na Romênia, e nos países da Europa Central. Em agosto os Russos já estavam na Prússia Oriental, território Alemão. Em 1945 os alemães que já haviam perdido Berlim, acabaram por render-se perante os Aliados. Apesar da coalizão formada para acabar com os nazistas, o país que havia suportado por mais tempo o fardo da guerra era a URSS. Sem dúvida, a vitória russa na batalha de Stalingrado foi decisiva, em termos psicológicos e de perda de contingente e armamento, para o começo do fim da besta nazista.
Para Daniel Aarão, apesar de haverem várias interpretações sobre que nação foi decisiva para o final da Segunda Guerra Mundial, a maioria salienta a ação dos Aliados e esquece de que a resistência soviética acabou por ser além de decisiva, após anos de resistência que culminou na grande vitória em Stalingrado, catastrófica para aquele pais, que sofreu com a perda de mais de 20 milhões de habitantes e acabou por trazer outras perdas, tanto materiais quanto econômicas, que levariam o país à crise. A vitória havia sido conquistada a um custo extraordinariamente elevado para a URSS.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Questões Sobre o Texto: “Da Paz à Guerra – Cap. 13 – A Era dos Impérios - Eric Hobsbawn”

Qual o papel do Exército no período anterior à Guerra?
A principal função do exército nas sociedades européias durante o período anterior à guerra (1871-1914) era civil. O alistamento militar era obrigatório em todas as nações importantes (embora nem todos os rapazes se alistassem), menos na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos. Com o avanço dos movimentos socialistas, generais e políticos ficavam receosos em colocar armas nas mãos de proletários que poderiam tornar-se revolucionários. Para os recrutas comuns entrar para o exército era uma espécie de rito de passagem, marcando a chegada de um garoto à fase adulta. O treinamento dos recrutas durava aproximadamente três anos e estes não buscavam glórias na vida militar. Já para os suboficiais profissionais o exército era um emprego. Para os oficiais, o exército era um símbolo de virilidade, superioridade e status social. Para governos e classes dirigentes os exércitos eram forças para enfrentar os inimigos internos e externos e garantir a lealdade dos cidadãos. O exército era um dos mecanismos poderosos à disposição do Estado para manter a civilidade e o sentimento de patriotismo do cidadão. O exército era responsável por espetáculos públicos de exibição militar, que divertiam e inspiravam patriotismo à população civil. Eventualmente, soldados e marinheiros eram mobilizados contra desordens e protestos. As ações militares contra civis podiam ser negativas do ponto de vista político, mas geralmente eram utilizadas. A repressão interna seria inofensiva enquanto as guerras nas colônias eram mais perigosas. A vida dos soldados e marinheiros das grandes nações eram tranqüilas, ao contrário dos exércitos russo e japonês.

O que o autor quer afirmar com a frase: “É evidente que as nações estavam longe de ser pacíficas, quanto menos pacifistas.”?
Segundo ele mesmo, nenhum governo queria uma guerra de grandes proporções, ao mesmo tempo em que viam a guerra como inevitável, onde alguns governos apenas decidiram que a melhor coisa a fazer era escolher o momento mais propício para iniciá-la. A situação no período anterior à guerra era de uma situação internacional em processo de deterioração progressiva, escapando ao controle dos governantes. A Europa foi se dividindo em dois blocos de alianças. Essas alianças foram tornando-se uma ameaça à paz, pois disputavam entre si, deixando esses confrontos fugirem do controle e tornarem-se inadministráveis. No período anterior a Primeira Guerra, quando os interesses das grandes nações estavam em disputa, elas entravam em conflito direto e acabavam por fazer um acordo de paz. O passado de conflitos militares restritos mostra que essas nações não eram pacíficas e nem pacifistas, pois sempre procuravam resolver as questões internas e os interesses externos por meio da guerra.

Qual a relação apontada pelo autor, entre a expansão do capitalismo e os anos que antecederam o começo da Primeira Guerra Mundial?
Para explicar essa relação, o autor cita Clausewitz e sua máxima, de que a guerra agora fosse apenas a continuação da concorrência econômica por outros meios. Apesar dessa idéia, Hobsbawn deixa claro que havia muito mais questões nesta relação. Para muitos fabricantes de armas, a guerra seria interessante ao passo que traria lucro à suas fábricas, ao mesmo tempo em que havia expansionistas econômicos belicosos, com a crença de que a guerra beneficiava o capital. O autor acredita que “(...) o desenvolvimento do capitalismo empurrou o mundo inevitavelmente em direção a uma rivalidade entre Estados, à expansão imperialista, ao conflito e à guerra.” (p. 437) A economia havia deixado de girar em torno da Grã-Bretanha, no período que antecedeu a Primeira Guerra e um número de economias industriais agora se enfrentava mutuamente e a concorrência econômica passou a estar ligada às ações políticas e militares do Estado.


Referências Bibliográficas:
HOBSBAWN, Eric J. A Era dos Impérios 1875-1914. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1988. (p. 417-451)

Análise do Golpe de 1964: Visão Política, Econômica e Social, Segundo Francisco de Oliveira e Caio Navarro de Toledo

Análise do Golpe de 1964 segundo Francisco de Oliveira:
Em seu texto “Dilemas e Perspectivas da Economia Brasileira no Pré-64”, Francisco de Oliveira faz uma crítica à visão existente no Brasil, de que o Golpe de 64 seria irremediável e que não havia alternativas. Segundo ele, todas as discussões e interpretações se encaminhariam para o “apocalipse inevitável”, aonde a “economia vai como boi vai para o matadouro”. Aquilo que seria determinado pela história, ele acredita ser na verdade uma alternativa, uma opção política.
Francisco de Oliveira mostra-se a favor do Golpe como opção que foi tomada, ainda que não houvesse um leque de opções: “Portanto, não se trata nem dessa história de que só havia aquele caminho, nem da história, mais fácil inclusive para os críticos, de que qualquer alternativa estava à disposição.” (p. 24) As alternativas estariam à disposição dos sujeitos e atores sociais que proviam de recursos políticos, econômicos e sociais para implementá-las. Ainda segundo Francisco, é necessário estudar o Golpe no contexto da estrutura das relações vigentes na economia brasileira. Visto isso, podemos analisar a visão econômica, política e social de Francisco de Oliveira sobre o Golpe.
Em relação questão econômica, Francisco faz uma breve comparação entre a economia atual e a economia nas vésperas do Golpe de 1964. Na verdade, ele constrói o seu texto basicamente tratando sobre o contexto econômico. A inflação seria de 80% ao ano, chegando a 80% de inflação ao mês. A dívida externa seria de 3,5 a 4 bilhões de dólares, sendo contraída através de empréstimos de entidades internacionais e dívidas com fornecedores, porém de fácil manejo. No que diz respeito ao coeficiente de investimento, este ficava em torno de 17 a 18%, índice bem elevado. Outra questão importante é a inexistência de dívida interna. Todos esses fatores representavam uma economia em ótimo desempenho, com uma taxa média de crescimento de 8% ao ano. Isso foi possível, segundo o autor, devido aos grandes ramos e setores da economia já estarem fundamentalmente implantados.
Havia, porém, atraso no setor agrícola na conjuntura do golpe, cuja parte da produção era destinada à exportação e outra parte ao mercado interno. Os Estados de São Paulo e do Paraná, por exemplo, possuíam agriculturas capitalistas, mas isso não acontecia no restante do país, surgindo daí, a importância da questão da Reforma Agrária.
Junto com a questão da Reforma Agrária havia duas outras questões importantes para a expansão capitalista: “(...) de um lado, uma redução do custo de reprodução da força de trabalho urbano-industrial (...). De outro, evidentemente – o que é a outra face da mesma moeda – a agricultura podia se constituir num dos grandes pólos de criação de um mercado interno que a indústria já criava aceleradamente, mas que não encontrava contrapartida no mundo agrário.” (p. 25-26) Esta questão poderia ser um impasse econômico, aliado à economia que crescia e ao mesmo tempo criava um problema financeiro. O Estado tinha um papel central na economia uma vez que é responsável pela emissão monetária. O grande impasse econômico seria a estreiteza da base fiscal do Estado. O impasse político seria a dificuldade de o Estado romper com a relação de forças onde se assentavam o PSD e o PTB.
Resolvidos esses impasses que de nenhuma forma desabonavam a economia, até porque esta já se mostrava com forte capacidade de crescimento, cria-se a grande questão sobre por que se dão Golpe. Segundo o autor, a resposta a essa pergunta poderia vir de um conjunto de fatores proeminentes da expansão capitalista, que atingiriam, por exemplo, a sociedade.
Na questão social, a burguesia teria sido deslocada de seu papel principal com o processo de expansão capitalista. Esta não ocupava mais o lugar central e não detinha mais o poder de classe dominante. Este lugar estaria sendo ocupado pela “união de classes”. O Sistema populista foi o grande responsável por promover a estruturação de classes, porém, com a expansão do capitalismo há o deslocamento das classes. Durante o regime populista, o proletariado e os assalariados urbanos ficaram de fora do tripé de poder (constituído por burguesia + proprietários rurais + classe trabalhadora emergente). Mesmo assim há um crescimento do proletariado, que deixa de ser subalterno e ameaça romper o controle das classes dominantes sobre o processo de desenvolvimento, pois o movimento Agrário e os Sindicatos Rurais ativos possuem enorme capacidade de mobilização.
Segundo Francisco de Oliveira, o Golpe de 64 não fez ameaça à propriedade, mas colocava em xeque toda propriedade inativa. O que importava era o uso capitalista da terra.
Sobre a questão de ordem política, o autor diz que o Golpe de 64 trata-se de “(...) uma opção de forças políticas que, quebrando alianças de classes, traduzem numa nova aliança política a relação de classes que se estabelece com o golpe de Estado. Donde nem o determinismo, nem a falta de caminhos e nem a cesta repleta de alternativas.” (p. 27)
Para concluir, é importante dizer que o autor considera que a economia possui certo grau de determinação, mas que não é imune à vontade e capacidade humana. E que após 64 todos fizeram opções: atores, classes sociais, representações e organizações políticas. O Golpe teria deixado como herança o congelamento por 20 anos de uma minoridade política que foi responsável pela exclusão de classes sociais, repressão ao movimento camponês, operariado, sindicatos de trabalhadores e intelectuais. A classe média, por sua vez, apesar de inicialmente ter apoiado a ditadura, depois colocou-se contra, pois também era incapaz de ter voz e voto nas decisões econômicas.

Análise do Golpe de 1964 segundo Caio Navarro de Toledo:
De acordo com Caio Navarro de Toledo, o período pré-64 foi um período bastante conturbado. Durante todo o governo Goulart se conviveu com a possibilidade de um golpe de Estado.
É válido lembrar que nesse momento surgiu um novo contexto político-social no país. “(...) Suas características básicas foram: uma intensa e prolongada crise econômico-financeira (recessão e uma inflação com taxas jamais conhecidas): constantes crises político-institucionais: ampla mobilização política das classes populares( as classes médias a partir de meados de 1963, também entraram em cena): fortalecimento do movimento operário e dos trabalhadores do campo: crise do sistema partidário e um inédito acirramento da luta ideológica de classes.” (p. 31-32).
Um fato polêmico que merece ser destacado é o parlamentarismo. Jango inicia seu governo no parlamentarismo, onde assume apenas uma função simbólica de chefe de Estado. Contudo, sabe-se que o regime parlamentarista não deu certo, porque não teve eficiência administrativa e não conseguiu solucionar o problema das crises. Além disso, havia uma disputa entre Presidente e Conselho pelo controle do executivo e pelos programas que o governo deveria estabelecer. No Congresso, a maioria fazia parte da aliança conservadora (PDS/UDN). Diante dessa situação João Goulart resolveu travar uma batalha contra o Parlamentarismo e obteve o apoio de vários setores políticos (exceto da UDN). Os trabalhadores também lutaram pela retomada do Presidencialismo. “(...) Em janeiro de 1963, após uma derrota fragorosa nas urnas, o parlamentarismo era revogado. João Goulart reassumia os plenos poderes que a Carta de 1946 conferia ao chefe do Executivo.” (p. 33).
Não se pode deixar de falar que se o Parlamentarismo não foi capaz de acabar com as crises, o Presidencialismo precisava resolver essa questão, mas será que isso foi possível? Os mais diversos setores elaboraram propostas divergentes para resolver problemáticas, como: endividamento externo, do déficit de pagamentos e recessão econômica.
“Como era previsível, o Executivo anunciava que seu plano de governo tinha condições de resolver em profundidade os impasses e as dificuldades enfrentadas pelo conjunto da sociedade brasileira. Esta ambiciosa proposta foi denominada de Plano Trienal de Desenvolvimento Econômico-Social: 1963-65 (...)” (p. 34)
“O Plano Trienal procurava compatibilizar o combate ao surto inflacionário com uma política de desenvolvimento que permitisse ao país retomar as taxas de crescimento do final dos anos 50. Como reconheciam alguns setores de esquerda, o plano constituía-se num avanço em relação às teses ortodoxas dominantes, pois afirmava ser possível combater o processo inflacionário sem sacrificar o desenvolvimento. Apesar de não atribuir aos salários efeitos inflacionários, na prática o plano pedia- como fazem todos os planos de salvação nacional- que os trabalhadores (novamente) apertassem os cintos, em nome de benefícios que viriam a obter a médio prazo (...) As críticas aprofundaram a partir do momento em que as conseqüências da política de eliminação de subsídios ao trigo e ao petróleo começaram a ter efeitos sobre os aviltados orçamentos das classes populares, CGT, PUA, FPN, UNE, grupo compacto do PTB se unem na condenação do plano (...)” (p. 34-35).
É importante colocar que o governo apresentou uma política antinacionalista que ficou nítida nas negociações feitas entre Brasil e EUA. “(...) O Plano Trienal- segundo as autoridades brasileiras- era a prova concreta que o governo oferecia para demonstrar nosso enquadramento na ortodoxia propugnada pelos EUA e pelo FMI.” (p. 35)
Os setores nacionalistas fizeram críticas intensas ao governo, pois ele retirou os subsídios para o trigo e o petróleo, mas, no entanto, comunicou que em breve iria adquirir por 188 milhões de dólares, doze usinas norte-americanas.
“Ao finalizar o ano de 1963, o malogro do Plano Trienal era reconhecido por todos: nem desaceleração da inflação, nem aceleração do crescimento tinham ocorrido. Houve, sim, inflação sem crescimento.” (p.35)
Já que o Plano Trienal foi um fracasso, Jango decidiu apostar nas Reformas de Base a fim de elevar o capitalismo industrial brasileiro a um novo patamar de desenvolvimento. No entanto, o Congresso era contrário à reforma agrária, mesmo sabendo que ela não teria fundo revolucionário e apenas consolidaria o capitalismo industrial. Por outro lado, os setores nacionalistas fizeram forte pressão sobre o Parlamento através de comícios, passeatas, manifestações por meio da CGT, FPN, etc.
Os setores de direita (IPES/IBAD, ADP, Associações femininas, Igreja, etc.) financiados pela embaixada norte-americana tachavam o governo Goulart de subversivo e diziam que era necessário acabar com a agitação social.
“Sem base de sustentação no Congresso, o governo Goulart se enfraquecia, pois dele se afastavam seus tradicionais aliados (...). Além disso, o governo entrava em choque com os setores da esquerda nacionalista, pois afastava colaboradores ideologicamente progressistas, combatia os setores não-pelegos do movimento sindical e condenava iniciativas políticas de esquerda( uma delas foi a proibição de um Congresso em defesa da revolução cubana).” (p. 36-37).
Agora a pergunta que fica é quem daria o golpe? Tanto direita como esquerda possuíam desconfianças em relação aos propósitos de Goulart.
“Convencido de que a direita golpista fechava o cerco, Jango começou a se voltar para a esquerda (...).” (p.38).
É significativo comentar que o comício de 13 de março de 1964, o qual reuniu mais de 200 mil pessoas em praça pública pelas reformas de base, medidas nacionalistas e ampliação das liberdades democráticas foi um ato de grande representatividade.
Desde os primeiros meses de março burguesia e classes médias pretendiam pôr fim ao governo Goulart e levantando a bandeira do anticomunismo movimentos femininos e outros ligados à igreja saíram às ruas para pedir o impeachment de Jango.
“Na madrugada de 31 de março, algumas horas antes da data marcada pela alta oficialidade para o desencadeamento do golpe, o general Mourão Filho (4º Região Militar)- para a surpresa e desagrado dessa mesma oficialidade- ordenou a suas tropas que se movimentassem em direção ao Rio de Janeiro (...). O chamado dispositivo militar do governo jamais seria acionado e Jango abriria mão do poder sem a menor reação partindo rumo ao sul do país. Ali mesmo pressionado por Brizola e outros, recusou-se, novamente, a qualquer iniciativa contra os golpistas. Preferiu a fuga para suas propriedades no Uruguai.” (p. 40)
Para finalizar essa abordagem é representativo questionar se o golpe teria sido realmente inevitável. Há muita especulação nesse sentido, mas se Goulart tivesse resistido militarmente, se tivesse reagido é possível que o resultado tivesse sido diferente. Os próprios conservadores de direita ficaram perplexos com a facilidade que conseguiram chegar ao poder. João Goulart não teve “vontade política de barrar o caminho do golpe”.
“O golpe encontrou as esquerdas fragmentadas em diferentes correntes ideológicas, isoladas das grandes massas populares e sem nenhuma estratégia política para resistir à ação deflagrada (...), as esquerdas mostraram-se inertes e desorientadas frente à ação militar, amargando uma derrota arrasadora e desmoralizante (...).” (p. 42)
Conclui-se, que o golpe de 1964 foi uma tentativa de impedir que a democracia restrita se transformasse em uma democracia ampliada. O trecho seguinte sintetiza os objetivos do regime militar.
“O regime militar instalado promoveria a chamada modernização conservadora, excluindo da cena política e social as classes trabalhadoras e populares, pondo fim a uma experiência de democracia política populista considerada intolerável para as classes dominantes brasileiras. Nada de muito surpreendente na história política de um país cuja burguesia tem revelado pouco emprenho na permanência e ampliação de uma ordem política, democrática que possa favorecer as lutas sociais dos trabalhadores e dos setores populares.” (p.44)



Referências Bibliográficas:

TOLEDO, C N. A democracia populista golpeada. In: TOLEDO, C. N. de. (Org.). 1964: visões críticas do golpe: Democracia e reformas no populismo. Campinas: Editora da Unicamp, 1997.

OLIVEIRA, F. de. Dilemas e perspectivas da economia brasileira no pré-64. In: TOLEDO, C. N. de. (Org.). 1964: visões críticas do golpe. Democracia e reformas no populismo. Campinas: Editora da Unicamp, 1997.

A Ação de Classe da Elite Orgânica: A Campanha Ideológica da Burguesia – Questões Sobre o Texto

1. Formas que assumiu a campanha ideológica:

Em seu texto “A Ação de Classe da Elite Orgânica: A Campanha Ideológica da Burguesia”, René Dreifuss nos mostra que havia duas formas de ação utilizadas como tática da chamada “elite orgânica”, e que “compreendiam desde atividades que objetivavam efeitos a longo prazo na orientação global das perspectivas sociais, econômicas e político militares, até táticas defensivas planejadas objetivando ganhar tempo suficiente para a ação estratégica política e militar lograr efeito”. (p. 231) Antes de expor as táticas, torna-se necessário analisar a conjuntura onde essas ações foram desenvolvidas, o alvo dessas ações e os órgãos que se responsabilizaram por elas, bem como entender os objetivos da elite orgânica.
A chamada “elite orgânica” era uma espécie de porta-voz e defensora das idéias do centro ao mesmo tempo em que ampliava as perspectivas elitistas e consumistas das classes médias e alimentava o temor às massas. Também influenciava a classe média contra o Populismo. Competia com a esquerda e o trabalhismo pelo controle do Estado e para isso, utilizava tanto de recursos legais quanto ilegais. “Os principais “alvos” para a doutrinação específica e pressão política- direta eram os sindicatos, o movimento estudantil e a classe camponesa mobilizada, as camadas sociais intermediárias e a hierarquia da Igreja, o Legislativo e as Forças Armadas.” (p. 230)
ADEP, IBAD, ADP, Promotion S.A, SEI e ADCE eram os órgãos que seriam responsáveis pelo desenvolvimento da campanha da elite orgânica, já o IPES preferia manter-se “aparentemente” independente dessas organizações, preferindo agir “por trás dos bastidores”.
Em relação às duas modalidades de ação a primeira era a chamada “Ação ideológica e social” e a segunda era a “Ação político-militar”, vejamos a seguir no que elas consistiam:

Ação ideológica e social: As ações ideológica e social eram combinadas e resultavam em dois tipos de doutrinação:
• Doutrinação geral: Apresentava os questionamentos da elite orgânica aos responsáveis políticos e ao público geral e causava impacto ideológico em públicos específicos e no Estado. Era realizada de forma neutralizadora através da mídia e tinha como objetivo fortalecer as idéias da direita e atacar o bloco nacional-reformista. Eram contra o comunismo, o socialismo, a oligarquia rural e a corrupção do populismo e defendiam a prosperidade do país e melhoria dos padrões de vida da população como fruto da iniciativa privada e não do socialismo ou da intervenção do estado na economia. Empresas e industriais ligados ao IPES/IBAD financiavam indiretamente a elite orgânica, assim como o IPES/IBAD também obtinha apoio de companhias internacionais de propaganda. Usavam a propaganda através de todos os tipos de veículos de comunicação (rádio, televisão, jornais, livros, panfletos, revistas, etc.) para um bombardeio ideológico e político, e promoviam conferências, palestras e simpósios para a divulgação de sua ideologia. Contavam com escritores profissionais, jornalistas e artistas. Conseguiam desta forma, organizar uma grande equipe que trabalhava com a manipulação da opinião pública. Ainda sobre a doutrinação geral, é relevante mencionar que o autor cita a Guerra psicológica através do rádio e televisão e a Guerra psicológica através de cartuns e filmes, ambas promovidas pelo IPES/IBAD para atingir um público grande e de forma eficaz.
• Doutrinação específica: Pode ser notada através da tentativa de moldar a consciência e organização dos setores dominantes para união em torno de um programa de modernização econômica e conservadorismo sócio-político. O objetivo geral era atacar e destituir o presidente João Goulart e conter a mobilização popular, com o apoio de grupos sociais da classe média e das classes dominantes. Um exemplo de ação da doutrinação específica foi o Congresso pelas Reformas de Base, e a campanha da mídia para desarticular o bloco oligárquico-industrial. As propostas de diretrizes políticas do Congresso pelas Reformas de Base cobriam três áreas de interesse: “A ordem política, que compreendia as Reformas Eleitoral, Legislativa, Administrativa, da Estrutura Política, do Judiciário e da Política Exterior; a ordem social, compreendendo a Reforma Agrária, a da Legislação Trabalhista, da participação dos Lucros das Empresas, da Distribuição de renda, da política do Bem-Estar e Previdência Social, da Educação, a Habitacional, a Sanitária e de Saúde Pública; ordem econômica, que incluía as Reformas Monetária e Bancária,Tributária, Orçamentária, da Legislação Anti-Trust, da Política de Comércio Exterior, de Serviços de Utilidade Pública, da política do Uso de Recursos Naturais, como também a Reforma da empresa Privada.” (p. 243-244) Podemos citar ainda,c omo forma de doutrinação específica, a pressão sobre a Igreja que foi exercida por associados do IPES ligados às estruturas eclesiásticas e leiga, e através da Opus Dei, na América Latina. É imprescindível mencionar que imprensa e os intelectuais também exerciam papéis importantes na doutrinação específica.

Ação político-militar: A ação político-militar podia ser percebida na forma com que a elite orgânica procurava “mostrar aos empresários, profissionais e membros das Forças Armadas a imediata ameaça a que estavam sujeitos” (p. 234) com as denúncias de “infiltração comunista”. Um exemplo de ação político militar foi quando, em 1962, a equipe do General Golbery destacou 200 militares das três Forças, enquanto Glycon de Paiva ofereceu uma lista de 200 políticos, além de estudantes, profissionais, jornalistas, empresários, professores universitários e associados do IPES, todos formuladores de opinião para participar da disseminação de material ideológico fornecido pela elite orgânica. Outra forma de ação político-militar eram os Manifestos, sendo importante mencionar o “Manifesto das Enfermeiras às Forças Armadas”, em 1963, onde elas pediam aos militares que interviessem diretamente no processo político contra o governo de João Goulart. Ainda conforme o autor, “um modo mais vil de guerra psicológica era a publicação regular de O Gorila, distribuído dentro das Forças Armadas.” (p. 236)

2. Principais Órgãos de Comunicação Envolvidos:


O texto de René Dreifuss trata a respeito do complexo IPES/IBAD, discutindo as suas formas de atuação e seus principais objetivos.
A elite orgânica buscou promover uma campanha político-ideológica que mobilizasse os mais diferentes setores da sociedade brasileira, principalmente: os sindicatos, o movimento estudantil, a classe camponesa, os setores intermediários, a hierarquia da Igreja, o Legislativo e as Forças Armadas. Ela procurou incitar tanto algumas frações das classes dominantes como grupos de classes médias para enfraquecer o poder executivo, a fim de destituir o presidente João Goulart.
Essa elite apostava em um programa de modernização da economia, que tinha como base a propriedade privada e no âmbito político ressaltava seu conservadorismo, porque somente, dessa forma, poderiam dar fim ao nacionalismo reformista, ao trabalhismo e aos tão temidos ideais comunistas.
O IPES/IBAD precisava incutir as idéias anticomunistas por meio de instrumentos que comunicassem e disseminassem essas informações. “Os canais de persuasão e as técnicas mais comumente empregadas compreendiam a divulgação de publicações, palestras, simpósios, conferências de personalidades famosas por meio da imprensa, debates públicos, filmes, peças teatrais, desenhos animados, entrevistas e propaganda no rádio e na televisão. A elite orgânica do complexo IPES/IBAD também publicava, diretamente ou através de acordo com várias editoras, uma série extensa de trabalhos, incluindo livros, panfletos, periódicos, jornais, revistas e folhetos. Saturava o rádio e a televisão com suas mensagens políticas e ideológicas. (...). O complexo IPES/IBAD também era capaz de articular e canalizar o apoio de algumas das maiores companhias internacionais de publicidade e propaganda, criando assim uma extraordinária equipe para a manipulação da opinião pública. (...) Certas empresas financeiras e industriais ligadas ao complexo IPES/IBAD se incumbiam dos arranjos financeiros, incluindo-os em suas folhas de pagamento, propiciando, assim, outra forma de financiamento indireto da ação da elite orgânica. Escritores, ensaístas, personalidades literárias e outros intelectuais emprestavam o seu prestígio, escrevendo e assinando, eles próprios, artigos produzidos nas estufas políticas e ideológicas do complexo IPES/IBAD”. (p. 232-233)
Sabe-se que o IPES possuía uma ótima relação com jornais e rádios de prestígio. Sem deixar de falar que as televisões nacionais também serviam como eficaz veículo de comunicação. É válido citar alguns jornais importantes que deram respaldo ao IPES, sendo que a maioria destes jornais apresentava algum representante ligado ou associado ao IPES: os Diários Associados, a Folha de São Paulo, o Estado de São Paulo e o Jornal da Tarde, Diário de Notícias, o Correio do Povo e o Globo, entre outros.
Uma infinidade de jornais se colocou à disposição do IPES, dente eles: a Tribuna da Imprensa (que atuava no Rio de Janeiro e era anti- Jango e antipopulista) e as Notícias Populares ( que era destinado a atingir as classes trabalhadoras de São Paulo).
“O complexo IPES/IBAD também mantinha o controle de alguns jornais de menor importância em todo o país. (...)Trabalhos produzidos para consumo empresarial e político eram reescritos em” linguagem de dona-de-casa” por pessoas tão variadas, como Wilson Figueiredo, editor do jornal do Brasil e a romancista Raquel de Queiroz. A escritora Nélida Pinõn, que se prestava como secretária do IPES do Rio, ajudava também nos esforços da propaganda” (p. 233-234).
“Todos esses jornais também mantinham sua própria e acirrada campanha eleitoral, que beneficiava a elite orgânica. Tudo isso era ajudado pelo controle que o complexo IPES/IBAD tinha sobre as agências de notícia e canais de informações em todo o país e o seu relacionamento especial com companhias de publicidade e anunciantes (...)”. (p. 234).
Outra colaboração significativa para o IPES/IBAD foi o patrocínio de manifestos feitos por associações, categorias funcionais e profissionais, entre os que mais obtiveram destaque, encontravam-se: o “Manifesto das Classes Produtoras”, o “Manifesto à Nação”, o “Manifesto das Enfermeiras às Forças Armadas”, o” Manifesto e Carta de Princípios Democráticos do Paraná”, o “Manifesto dos Estudantes de Direito da Universidade Mackenzie” e o manifesto” Para o Brasil, para o seu Progresso e para a Felicidade de seu Povo”.
“A face política e ideológica encoberta do IPES inundava o país com a propaganda anticomunista da elite orgânica, em forma de livros, folhetos ou panfletos. Como já foi observado anteriormente, em termos de doutrina, ele se viu expressando objetivos e ideais da Aliança para o Progresso (...). As publicações que promoviam a Aliança para o Progresso e a Mater el Magistra( profundamente apoiadas na imagem projetada por J. f. Kennedy e o Papa João XXIII) serviam a dois objetivos: proporcionar à opinião pública uma mensagem suficientemente ampla para favorecer a “modernização” do regime e restrita o bastante para indispor o público contra o socialismo, o comunismo e o nacional-reformismo(...).” (p. 235-236)
Segundo Dreifuss, o rádio e a televisão são responsáveis por uma espécie de “bombardeio político e ideológico” contra o Executivo.
“A elite orgânica montou, de fato, uma eficiente e poderosa rede de relações públicas e perícia profissional nos campos de comunicação e propaganda. O IPES fez amplo uso da televisão em sua campanha contra o governo, a esquerda e o trabalhismo, apresentando programas semanais na maioria dos canais a nível regional e nacional.” (p. 245)
“O rádio era um poderoso meio de doutrinação geral e um valioso foco para se montar ações ofensivas contra o Executivo, principalmente em um país com massas pobres, sem condições de terem televisões. Além disso, sendo analfabeta uma grande proporção da população e, conseqüentemente, não atingida pelas atividades doutrinantes da imprensa escrita, o rádio transístor, relativamente barato e acessível nos mais recônditos cantos do país, representava uma ajuda considerável para a elite orgânica (...).” (p. 249)
Filmes, cartuns e charges eram outros recursos utilizados pelo IPES de forma inteligente para alcançar o público que tinha acesso à leitura e ao cinema.
“Para atingir um público grande, o IPES dependia de uma série de filmes extremamente eficazes, produzidos por ele próprio e de outras fitas às quais obteve acesso (...).” (p. 250)
Pode-se concluir que o IPES/IBAD utilizou todos os recursos que pôde para “apagar” o bloco populista da política brasileira e mesmo sem ter tido a capacidade de convencer a todos, ele obteve êxito em um aspecto relevante: conseguiu reunir as classes médias contra o governo.











Referências Bibliográficas:

DREIFUSS, René. A ação de classe da elite orgânica: a campanha ideológica da burguesia – cap. VI (p. 229-279) – In: 1964: A Conquista do Estado. Petrópolis: Vozes, 1981.

O Populismo e seu Conceito segundo a visão de Francisco Weffort, Ângela de Castro Gomes e Jorge Ferreira

Os três autores em seus textos nos mostram aquilo que seria, segundo cada um deles, o populismo Brasileiro, e procuram conceituá-lo, porém, diferem entre si, tendo explicações diversas sobre o que é o populismo e sobre o seu conceito.

Ângela de Castro Gomes, crítica à noção de populismo e sua visão sobre este conceito:
O texto de Ângela de Castro Gomes “O populismo e as ciências sociais no Brasil: notas sobre a trajetória de um conceito” tem como objetivo principal acompanhar a trajetória do conceito populismo na produção acadêmica da história e das ciências sociais no Brasil e nos traz num primeiro momento, a explicação e conceitualização do populismo, que ao mesmo tempo é utilizado e criticado pela academia. As primeiras formulações a cerca do populismo foram feitas em meados de 1950, pelo Grupo Itatiaia, que criam o IBESP e publicam os Cadernos do nosso tempo. Um dentre os principais problemas estudados pelo grupo, é o surgimento do populismo na política do Brasil. Segundo Ângela, o ensaio “Que é o Ademarismo?” publicado em 1954, não aponta a conceituação do populismo, apesar de apresentar duas condições fundamentais para a emergência/caracterização deste fenômeno. Vale ressaltar, que nesse período, as formulações sobre o populismo estão ligadas ao desenvolvimento nacional, onde ele é visto como uma manifestação resultante da transição da economia agro-exportadora para a expansão industrial urbana, onde a existência das massas é característica. O populismo no período dos anos 40 a 60 teria duas faces indissolúveis: a econômica e a política. A partir da década de 60, o populismo passa a ser investigado para responder quais teriam sido as razões do Golpe de 64. Após 1968 seria publicado um volume de título: “Brasil: Tempos Modernos”, organizado por Celso Furtado. Já em 1974, Jaguaribe lança “Brasil: crise e alternativas”, obra destinada na primeira parte à natureza e a crise do populismo no Brasil. Em 1978 Weffort publica “O populismo e a política Brasileira”. A autora em suas palavras, diz que “Para Weffort simplificando muito, pode se dizer que o populismo é o produto de um longo processo de transformação da sociedade brasileira, instaurado a partir da revolução de 1930, e que se manifesta de uma dupla forma: como estilo de governo e como política de massas.” (p. 32)
Ainda nesse contexto, ela diz que Weffort propõe um conceito de Estado de Compromisso, onde o líder de classe dominante passa a se confundir com o próprio Estado, e a classe popular é subordinada. O apelo às massas seria utilizado para encontrar suporte e legitimidade numa crise de instabilidade política, e esta relação é a “manipulação populista”. Nesse sentido, a manipulação pode ser tanto uma forma de controle do Estado, como forma de atendimento de suas demandas. A autora diz ainda que Weffort sugere inclusive, a substituição de “manipulação” por “aliança”, e ainda, o Estado seria forte e ativo e as classes populares seriam fracas e passivas. Weffort possuía um pensamento de incompatibilidade entre transformações econômicas e mobilização social x manutenção da democracia, o que culminaria no esgotamento do regime populista. No fim do Estado Novo o enfrentamento entre as forças do pacto populista torna-se mais forte, na medida em que o movimento popular cresce de forma autônoma.
Ao citar R. C. Andrade, Ângela diz que este reafirma o controle das massas pelo Estado, mas questiona a redução do populismo a um modelo resultante de conflitos entre elites. As pressões populares não seriam espontâneas e sim ligadas à lideranças como o PC, sendo portanto, uma “manipulação incompleta”. Andrade tenta flexibilizar a idéia de manipulação e reforçar a ambigüidade existente no conceito.
Após todo um debate sobre a trajetória do conceito “populismo”, a autora passa a expor a sua idéia sobre ele. Ela seria defensora do “trabalhismo” como forma de expressão que traria uma interpretação histórica alternativa ao populismo. Em primeiro lugar ela repensa a Revolução de 30 como instauradora de 2 tempos para o movimento operário: um “heróico” e outro “alienado”. Em seu artigo a autora recusa a atribuição aos trabalhadores como passivos em relação à posição política. Desta forma, em seu estudo sobre as classes trabalhadoras seria inviabilisável utilizar o conceito “populismo”. Ângela opta por rejeitar em seu trabalho este conceito, pois acredita que ele – o conceito populismo – deve ser atualizado em cada caso de estudo histórico específico. Isto seria importante para repensar por exemplo, as razões da participação dos trabalhadores na implantação do modelo de socialismo corporativo.
A grande crítica que a autora faz, seria de que a “manipulação de massas” que tem sido uma expressão continuamente utilizada pelos estudiosos do populismo, já não pode mais ser determinante para explicar certos contextos históricos, principalmente no que diz respeito a formação da classe trabalhadora.

Conceito e aplicação do que é populismo segundo Francisco Weffort:
Por meio da leitura do texto de Francisco Weffort, entende-se por populismo a política de incorporação das massas populares urbanas realizada pelo Estado a fim de legitimar seu poder, porque esse precisava de uma base de sustentação e foi diante do contexto revolucionário de 1930, com destaque para os chamados novos grupos(classe média e burguesia industrial) que a política populista se expressou, já que essas novas classes não apresentavam uma ideologia própria e não possuíam representatividade política. Por essa razão, o Estado precisou fazer um “compromisso” com as massas populares urbanas para assegurar-se no poder.
Também é significativo destacar que a ausência das classes populares no período revolucionário não demonstra que elas tenham sido passivas ou conformadas com a realidade, muito pelo contrário, sempre exerceram pressão contra a oligarquia, possuíam um histórico de lutas e isso levou os demais grupos a temer a ação das massas por saber que poderiam representar uma ameaça a seus interesses.
“Desse modo, uma das raízes da capacidade de manipulação dos grupos dominantes sobre as massas está na sua própria debilidade como classe, na sua divisão interna e na sua incapacidade de assumir, em seu próprio nome, as responsabilidades do Estado (...).” (p. 71).
É importante mencionar que, ao mesmo tempo, que o populismo incorpora as massas, agindo o líder populista como um “protetor” do povo, esse também podia ameaçar o poder do Estado com as suas reivindicações.
“Em realidade, o populismo é algo mais complicado que a mera manipulação e sua complexidade política não faz mais que ressaltar a complexidade das condições históricas em que se forma. O populismo foi um modo determinado e concreto de manipulação das classes populares mas foi também um modo de expressão de suas insatisfações(...).” (p. 62)
“(...) Esse estilo de governo e de comportamento político é essencialmente ambíguo e, por certo, deve muito à ambigüidade pessoal desses políticos divididos entre o amor ao povo e o amor ao poder (...)”. (p.63)
Getúlio Vargas foi uma grande liderança populista. O Estado Novo (1937-1945) foi uma das maiores expressões do populismo. A grande aplicação dessa política se deu no âmbito de seu conteúdo social. Vargas apostou nas iniciativas à legislação trabalhista, que consolidou-se com a CLT em 1943.
A idéia da transferência de prestígio para o líder é uma das vertentes do populismo.
“(...) Essa transferência de prestígio contém um dos elementos importantes da relação populista em geral, tanto no período ditatorial quanto na etapa democrática: o líder será sempre alguém que já se encontra no controle de alguma função pública- um Presidente, um governador, um deputado, etc, isto é, alguém que por sua posição no sistema institucional de poder, tem a possibilidade de “doar”, seja uma lei favorável às massas, seja um aumento de salário ou, mesmo, uma esperança de dias melhores.” (p. 73)
Para finalizar as considerações colocadas acerca do populismo, o trecho subseqüente demonstra que o autor considera essa política como manipuladora das massas, entretanto reconhece que é necessário analisar com cautela determinados aspectos na hora de definir esse conceito. “A noção de manipulação tanto quanto a de passividade popular, tem que ser relativizada, concretizada historicamente, para que possamos entender a significação real do populismo (...).” (p. 75)

Jorge Ferreira sobre o conceito de “populismo”:
Jorge Ferreira, em seu artigo: “O nome e a coisa: o populismo na política brasileira”, assim como Ângela de Castro Gomes, considera que um dos grandes formuladores do conceito “populismo” nas décadas de 50 e 60, foi Francisco Weffort, que identificava o Estado como totalitário, repressor e manipulador das massas. Na década de 70 a 80, essa visão de populismo “manipulador das massas” ainda é utilizado, porém a idéia de “satisfação” do povo pelas políticas públicas começa a ser questionado. Depois da década de 80, segundo Ferreira, alguns autores como Thompson e Gramsci trazem uma nova perspectiva, e acabam por colocar o conceito do populismo em decadência.
Ferreira, assim como Ângela, recusa-se a defender o conceito populismo, e ressalta que o uso deste conceito sempre foi utilizado equivocadamente por sociólogos e historiadores, assim como defende o conceito de “trabalhismo” que seria composto de idéias, crenças e valores dos trabalhadores.


Referências Bibliográficas:

FERREIRA, Jorge. O nome e a coisa: o populismo na política brasileira. In: O Populismo e sua História: debate e crítica. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.

GOMES, Ângela de Castro. O Populismo e as ciências sociais no Brasil: notas sobre a trajetória de um conceito. In: O Populismo e sua História: debate e crítica. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.

WEFFORT, Francisco. O Populismo na política brasileira. RJ: Paz e Terra, 1978.

“Aquelas Mulheres de Minas” – Questões Sobre o Texto

1. O que era a LIMDE?
Para definir o que era a LIMDE, torna-se necessário resgatar a sua trajetória surgida enquanto grupo de mulheres sem consciência organizacional e mais tarde, como uma organização feminina forte, com uma estrutura formal e com bases teórico-políticas legítimas, como veremos a seguir.
A LIMDE - Liga da Mulher Democrata - foi fundada em Belo Horizonte no final de Janeiro de 1964. Segundo o texto “Aquelas Mulheres de Minas” de Heloísa Starline, um grupo feminino mineiro, inspirado na CAMDE-RJ (Campanha da Mulher pela Democracia – que surgiu no Rio de Janeiro como conseqüência da ação do IPES-RJ), fundou a LIMDE. A LIMDE surgiu em Minas Gerais um ano depois do IPES-MG começar a perceber a necessidade de criar um organismo feminino nos moldes da CAMDE e da UCF. Porém, para o IPES-MG, seria importante que antes fossem criados mecanismos capazes de fazer parecer que essas ações políticas femininas fosse espontâneas, fruto da iniciativa propriamente feminina.
Em 1963, um ano antes da fundação oficial da LIMDE, um grupo reduzido de senhoras que ainda não se identificavam como grupo organizado ensaiou um protesto contra a visita do presidente da Iugoslávia ao Brasil. O protesto, que não teve maior impacto, tinha à sua frente a mãe do general José Lopes Bragança, um dos líderes dos “Novos Inconfidentes”. A partir desse fato a direção do IPES-MG começou a estimular a criação de um grupo feminino para atacar João Goulart. Ana Maria Lopes Bragança (cunhada do supracitado José Lopes Bragança e esposa de Elcino Lopes Bragança, membros da direção do IPES-MG) e Lydia Magon Villar, foram acionadas pela alta liderança do IPES para criar um organismo feminino semelhante ao CAMDE e a UCF.
Em Janeiro do ano de 1964, um “balão de ensaio” foi criado por um outro grupo de mulheres, que tomaram a iniciativa em um movimento de protesto contra a realização do Congresso da CUTAL em Belo Horizonte. O movimento feminino chamado “Cadeia da Família Cívica contra o Marxismo”, tinha como principal adversário o Comunismo, e estavam convencidas que o Congresso da CUTAL era uma reunião de comunistas. Este grupo promoveu um abaixo-assinado que foi levado ao governador do Estado e ao presidente, protestando contra a realização do Congresso. É importante salientar que este acontecimento, por ser de caráter inédito, recebeu grande cobertura da imprensa, o que fez com que houvesse impulso para o crescimento do movimento.
A partir desse fato, o IPES-, que via a necessidade da criação de um grupo feminino de pressão surgir com aparência espontânea, tinha o impulso inicial dado pela “Cadeia da Família Cívica contra o Marxismo”, e fruto da vontade popular. Coube então à liderança do IPES- enviar suas representantes femininas Ana Maria Bragança e Lydia Magon, para reforçarem o movimento e, principalmente, para inseri-lo estrategicamente no quadro definido pelo IPES-MG. A partir desse instante, o grupo que havia surgido de forma espontânea para impedir o Congresso da CUTAL, passou a atuar e receber orientação do IPES-, embora muitas mulheres que participavam não tinham conhecimento desse fato.
Após a vitória alcançada sobre a CUTAL, foi fundada oficialmente a LIMDE, que controlada em parte pelos interesses do IPES-, funcionava como uma espécie de “cortina de fumaça” eficaz, ocultando sua presença - do IPES- - e diluindo num conjunto maior de mulheres a participação política das esposas dos principais líderes conservadores do estado.
Sobre sua prática política, a autora do texto mostra que a LIMDE organizou seu discurso no sentido do combate ao comunismo, o qual viam como ameaçador dos três pilares da sociedade livre. Conceitos que seriam essenciais e se tornariam seu slogan: “Deus, Pátria e Família”. A autora deixa claro acreditar que as formas ideológicas utilizadas pela LIMDE eram eficazes em relação à mobilização da classe média, pois o comunismo destruiria o princípio do mito da ascensão, aspirado por essa camada da população. Na verdade, a LIMDE era presidida por senhoras da classe alta, esposas de líderes políticos, que direcionavam suas políticas de mobilização à classe média, pois necessitavam dessa “massa” para apoiar e legitimar suas ações.
Ao falar da LIMDE, outra questão que é importante salientar, é o fato do forte apelo emocional que de certa forma esse grupo feminino repassava ao povo: como mães, esposas, donas de casa, mulheres que lutam pela defesa de sua família, que “(...) falam publicamente de medo, de violência, de morte, de destruição, e que apelavam à coragem dos homens e a sua própria.” (p. 174). A imagem dessas mulheres frágeis, ainda ligadas ao modelo ideal de “mineiridade” e ao mesmo tempo ativas politicamente, lutando por ideais que antes eram tipicamente de cunho “masculino”, acaba por ser incômoda e ferir o orgulho masculino, incitando os homens à ação em nome de suas lutas. Da mesma forma, o caráter feminino em ações políticas acabou por ter grande desfecho na imprensa e atrair todos os meios de comunicação, despertados de curiosidade por suas práticas.

2. Sobre seu grau de autonomia:
O grau de autonomia da LIMDE é uma questão que merece ser discutida. Segundo Heloísa Starline, as líderes da Liga da Mulher Democrata estavam dentro da concepção de “mineiridade”, que sendo mães e donas-de-casa contribuíam com seus valores tradicionais de família, moral e religião. Elas tinham o peso ideológico e simbólico que o IPES precisava para realizar suas metas.
O IPES inicialmente encontrou dificuldades para se articular com a LIMDE, principalmente com o grupo liderado por Maria Victor Bolivar Moreira, que se considerava autônomo e lutava pela direção do movimento que pensava ter fundado. “Sobretudo era necessário que esse grupo seguisse acreditando em sua autonomia, dado que era daí que o movimento feminino obtinha seu caráter espontâneo, necessário para sua legitimação frente aos olhos da opinião pública (...)” (p.161).
Sabe-se que a LIMDE no intuito de promover suas campanhas ideológicas de conscientização precisava de uma estrutura financeira adequada para atingir seus objetivos. As contribuições eram feitas pelas sócias da entidade, porém essas mulheres que eram mães e esposas não podiam oferecer mais que 100 mil réis mensais. O estatuto da liga permitia outras formas de contribuição, como: donativos diversos e “outras fontes eventuais”. “Não restam dúvidas de que as outras fontes de recursos da LIMDE não eram tão eventuais como previam seus estatutos. O IPES- não só orientou e organizou politicamente a LIMDE, como também assistiu financeiramente a entidade, viabilizando toda a infra-estrutura necessária à mobilização das mulheres mineiras (...)” (p.166).
Um aspecto que leva à reflexão acerca da autonomia da LIMDE é que se o IPES supria a Liga da Mulher Democrata financeiramente, porque não optava por lhes entregar valores em dinheiro para que elas fizessem as aplicações onde considerassem necessário? A resposta é bem simples. Eles queriam que o mesmo que ocorria no lar ocorresse também no âmbito político, que as mulheres precisassem do aval masculino para a tomada das grandes decisões, já que quem deveria se preocupar com o destino dos recursos eram os homens, pois de acordo com suas próprias mulheres possuíam mais experiência em termos políticos. “Em outras palavras, as mulheres mineiras, na LIMDE, dependiam do IPES- para assegurarem sua própria sobrevivência política, na mesma medida em que, no espaço privado, dependiam de seus maridos para assegurarem sua sobrevivência física. Da mesma forma que à época eram consideradas, juridicamente, incapazes de compartilhar com o homem a chefia da família e eram, em função disso, assistidas e autorizadas por seus maridos, na LIMDE as mulheres dependiam da orientação, da organização e, sobretudo, da assistência financeira proveniente do elemento masculino.” (p. 167).
Pode-se concluir que o verdadeiro papel das mulheres nesse processo foi servir como base de legitimação para a atuação do IPES e como elemento essencial na desestabilização do governo Goulart e na luta contra o fantasma do Comunismo.

3. Estrutura organizativa:
Heloísa Starline apresenta em seu texto a estrutura organizativa da Liga da Mulher Democrata.
A administração da LIMDE era composta por uma diretoria de seis membros com mandatos de dois anos, tendo como presidente a famosa Maria Victor Bolivar Moreira. Ela obteve destaque e representação diante dos meios de comunicação das massas e da opinião pública. Todavia, o cargo de primeira Vice- Presidente ocupado por Ana Maria Bragança era o que tinha importância fundamental dentro da Liga, porque a estrutura interna e as finanças eram de responsabilidade da 1º Vice- Presidente. A Secretaria, a Tesouraria e a Comissão de Informações ficavam sob o comando da 1º vice, ou seja, o controle efetivo não era exercido pela presidente, a qual tinha um poder que se pode definir mais como decorativo que real.
Já a 2º Vice- Presidência, comandada por Diumira Silva Araújo controlava as comissões de menor expressão, como Alfabetização, Enfermagem e Catequese. “(...) Na prática, funcionavam apenas como uma das formas utilizadas pela LIMDE para aproximar-se de organizações beneficentes, ligadas, em especial, à Igreja Católica, e ali desenvolveram seu trabalho de arregimentação política e de disseminação ideológica, obtendo dessa forma legitimação cívico- filantrópica(...) Fundamental, no período, era a Comissão de Propaganda e Relações Públicas, encarregada da realização da parcela de responsabilidade que cabia à LIMDE no âmbito da “ caixa de ressonância” idealizada por Glycon de Paiva, Golbery de Couto e Silva e outros a nível nacional, e que, exatamente por isso, era dirigida por ninguém menos que a própria Lydia Magon.” ( p. 162- 163).
O trecho subseqüente demonstra claramente como acontecia a administração da LIMDE. “(...) Na verdade, duas questões devem ser aqui observadas para a compreensão desse problema: em primeiro lugar, o fato de que, na prática, as diretorias dos organismos femininos compunham-se de um pequeno grupo de mulheres que concentrava os poderes de planejamento e decisão em uma estrutura verticalizada, transformando a grande massa de sócias em meras executoras de tarefas, convocadas apenas nos momentos de mobilização para as ações públicas de grande porte. Em segundo lugar --- e é aqui que o problema se esclarece --- em torno desse reduzido grupo de mulheres, organizava-se um corpo de assessores masculinos, em geral composto por empresários e militantes ligados ao complexo IPES-IBAD que, dessa forma, orientava politicamente as atividades desenvolvidas pelos grupos femininos de pressão” (p. 164).
Sabe-se que os assessores masculinos eram freqüentes na LIMDE para orientar as mulheres, entretanto foi em Minas Gerais que uma mulher conseguiu tornar-se assessora de um grupo feminino e quem obteve o cargo foi ninguém menos que Lydia Magon que foi uma significativa interlocutora política, a qual acabou por representar o elo entre o IPES e a Liga da Mulher Democrata. “(...) Assim, Lydia Magon era, no interior da LIMDE, a principal responsável pela preparação ideológica e estratégica das mulheres mineiras no processo de desestabilização do governo Goulart”. ( p. 165).
É possível concluir pela leitura da obra de Heloísa que a orientação da política e da organização da LIMDE foi feita de maneira eficiente pelo IPES- e que eles não encontraram muitos obstáculos para garantir esse controle. “(...) Com efeito, esta orientação política era tanto mais intensa, se considerarmos que partia das próprias esposas dos líderes conservadores mineiros, que eram, por assim dizer, trabalhadas ideologicamente no espaço íntimo da vida doméstica diária (...)”. (p. 165).

4. Relação com o IPES Mineiro:
Como já foi discutido, ao longo deste trabalho, a LIMDE possuía ainda que de forma “mascarada”, uma grande ligação com o IPES-MG. Era pelo IPES-MG que passava em última instância a definição final das ações que deveriam ser desenvolvidas pela LIMDE. O texto ressalta que em MG a Liga da Mulher Democrata possuía oficialmente dois orientadores masculinos, que eram ligados ao IPES-“Novos Inconfidentes”. A responsável feminina pela articulação da ligação entre o IPES e a LIMDE era Lydia Magon, ocupando a Assessoria Geral da LIMDE. Na página 165 a autora confirma a ligação LIMDE-IPES: “(...) não havia maiores dificuldades para que o IPES- garantisse, de forma eficaz, a orientação política e organizacional da LIMDE, utilizando para tanto, outros instrumentos além do corpo de assessores.”
Além disso, havia a questão financeira, como já foi supracitado, o IPES- apoiava financeiramente a LIMDE, fazendo chegar à entidade tudo o que fosse necessário: “(...) Passagens aéreas, panfletos impressos, carros com alto-falantes, salas para reuniões etc.” (p. 166). Sobre a questão financeira a autora ainda conclui: “(...) os dirigentes do IPES- terminavam por reproduzir, mesmo na esfera do político, seu papel de maridos, de chefes de família, encarregados de suprir as necessidades da mulher que, eterna dependente do homem no espaço doméstico,persistia como tal na esfera do político.” (p. 167).
Vale ressaltar ainda, que para o IPES- a LIMDE representava um dos instrumentos decisivos para movimentar a massa “pequeno-burguesa”. Para concluir, o trecho seguinte mostra a relação da LIMDE com o IPES mineiro era vista pela autora: “Por conseguinte, a mobilização feminina era, na verdade, uma máquina poderosa e de longo alcance a ser utilizada pelo IPES frente a diferentes alvos, não estando limitada ao espaço de atuação político-ideológica representada pelas classes médias.” (p. 170)
Essa certa “dependência” em relação ao IPES-MG para dar sustentabilidade às ações e à própria organização da LIMDE pode ser, de certa forma confirmada, quando a autora trata do fim das atividades do grupo feminino. Segundo Heloísa, o grupo autônomo da LIMDE, dirigido por Maria Victor Bolivar Moreira, garantiu a independência da organização frente aos demais grupos femininos de pressão, bem como o fato nunca ter sido totalmente absorvido pelo projeto do IPES, e isto o manteve autônomo durante todo o período que antecedeu o Golpe de 1964, tendo como conseqüência a dissolução da LIMDE. Em certo instante, ocorreu o racha entre esse grupo autônomo e o restante da LIMDE, levando a organização à crise, onde a disputa era o controle de identidade do grupo, onde o grupo autônomo acabou por vitorioso. Depois da LIMDE entrar em recesso, buscando a recomposição de forças, as mulheres do grupo se retiraram uma a uma, até a entidade desaparecer. O IPES-MG certamente poderia ter mantido a entidade viva por mais tempo, porém também passava por dificuldades e não pode mais manter-se como base de sustentação para a LIMDE. Conclui-se essa discussão com o próprio raciocínio da autora: “(...) desfeito o lar político com o abandono do parceiro masculino, naquele momento incapaz de continuar garantindo sua manutenção, as mulheres da LIMDE regressam ao seu lar primitivo, à segurança doméstica oferecida pelos maridos, retornando melancolicamente a sua herança de silêncio.” (p. 192)


Referências Bibliográficas:
STARLINE, Heloísa. Os senhores das Gerais. Petrópolis: Vozes, 1986. (p. 151-192)

sábado, 5 de junho de 2010

O Caudilhismo

Este trabalho foi apresentado na Disciplina de História da América II. Espero que gostem...

O CAUDILHISMO

INTRODUÇÃO:
         O Conceito Caudilhismo vem sendo discutido e investigado por historiadores ao longo dos anos, muitas vezes, é associado ao Caciquismo e ao Coronelismo, todos os três representados pelo poder e prestígio de chefes políticos locais. No dicionário, Caudilhismo é definido por s. m. Processos de Caudilho, e Caudilho por s. m. Chefe militar; cabo de guerra”. Entretanto essas duas nomenclaturas possuem uma definição histórica bem maior, que a seguir será exposta de uma forma clara e abrangente, buscando resgatar da melhor forma seu completo significado.

ANTECEDENTES:
         Para definir aquilo que foi denominado Caudilhismo, torna-se necessário resgatar alguns acontecimentos que antecederam o Regime Caudilhista na América Latina. Em primeiro lugar, devemos lembrar que a partir do momento em que as colônias começaram a tornar-se independentes da metrópole, as novas repúblicas latino-americanas estavam frágeis e instáveis, os problemas eram inúmeros: havia caos na administração (controle da administração por fazendeiros proprietários rurais, donos de enormes extensões de terra), crise econômica, conflitos armados, declínio na cultura e educação, além de uma população que era de maioria camponesa e analfabeta. É possível inclusive, comparar as novas repúblicas latino-americanas com a Europa Ocidental após a queda do Império Romano do Ocidente, a partir do século III, pois havia territórios economicamente independentes, que eram baseados na auto-suficiência, semelhante ao sistema feudal primitivo. (CHALUPA, Jirí.)
        O Liberalismo e o Positivismo tiveram pouca influência na América Latina, pois a falta de uma burguesia estruturada eliminava as conquistas da doutrina liberal. Os liberais, na América Latina, assim se intitulavam somente para conquistar o poder, pois acabavam por serem centralistas como os conservadores. Nesse contexto estas peculiaridades sociais, econômicas e políticas, foram definitivas, na formação do fenômeno chamado Caudilhismo. (AQUINO, Rubim Santos Leão de.) Além disso, o individualismo espanhol também esteve presente nas raízes do Caudilhismo. No século XX, após as guerras de independência, também surgem diversos representantes caudilhistas, que intitulavam-se ditadores, porém não eram tiranos, pois defendiam seu povo da influência e intervenção estrangeira. (FAVROD, Charles Henri.).



CAUDILHISMO E CAUDILHOS:
         Visto isso, torna-se necessário mencionar que o regime caudilhista teve seus primeiros representantes a partir da época das independências das colônias Hispano-americanas e espalhou-se rapidamente por toda a América Latina: Argentina, Uruguai, Chile, Haiti, Peru Uruguai, México e até mesmo no Brasil, no Rio Grande do Sul, onde haviam estancieiros caudilhos e no restante do país, onde geralmente os líderes latifundiários eram chamados de coronéis e se impunham pela força e medo, diferenciando-se um pouco, por esta razão, dos verdadeiros caudilhos, que geralmente chegavam ao poder pelo carisma, mais do que pela própria força militar. Mas há controvérsia sobre essa questão, parecendo ser mais provável que na verdade, o Caudilho usasse uma combinação dessas táticas, e se consolidasse no poder pelo fato de representar “aparentemente” os interesses da população local que em grande maioria era totalmente despolitizada e sem o conhecimento da democracia.
         Os Caudilhos eram grandes fazendeiros e/ou proprietários rurais, donos das terras aráveis e das pastagens. Possuíam empregados, peões e um exército pessoal, pois além de grandes proprietários de terra também eram importantes chefes militares, organizando milícias que cuidavam da proteção das terras e dos “agregados” nessas terras (trabalhadores, peões, etc.) além de ser utilizadas muitas vezes para ameaçar o governo central, mantendo uma influência decisiva. Os chefes caudilhos possuíam prestígio por sua autoridade e poder de intimidação.
         Além do respeito pela sua autoridade militar, os caudilhos eram conhecidos por possuírem certo carisma. No Rio Grande do Sul, por exemplo, “O caudilho gaúcho teve seu poder reconhecido mais pelo consenso do grupo social do que pela força. Na segunda metade do século XIX, seu papel de chefe eleitoral tornou-se preponderante.” (GUAZELLI, César. Citado em Os Caudilhos no Rio Grande do Sul: Cadernos de História, Memorial do Rio Grande do Sul). Na verdade, talvez fosse esta a grande característica que fez do Caudilhismo um regime diferenciado: a capacidade que o caudilho possuía para dominar, como percebemos em um trecho de DOZER citado na obra de AQUINO:
O caudilho possui o dom natural de escravizar a vontade de outros homens e de arrastá-los consigo – à rebelião, à batalha ou mesmo por sobre um abismo. Ganha a afeição de grandes massas e converte-as no seu povo. Detém a confiança desse povo; torna-se o símbolo do seu prestígio; encarna a personalidade da Nação. (...) Agindo em nome do povo e afirmando reunir os interesses deste, justifica a sua ditadura.” (DOZER, D.M., op. cit, p. 245)

         Visto o contexto do surgimento do Caudilhismo e as características dos líderes caudilhos, é importante mencionar a existência de dois tipos distintos de Caudilhismo, o Liberal e o Conservador. O Caudilhismo Liberal (ou progressista) tinha o apoio das massas, pois procurava garantir o domínio das novas classes proprietárias de terra e defendia a modernização econômica obtida através do capital estrangeiro. O Caudilhismo Conservador tinha apoio de outros setores, mais tradicionais e conservadores como a Igreja e o Exército. Procurava manter as estruturas tradicionais e conter o avanço das massas e novas classes proprietárias de terra. (AQUINO, Rubim Santos Leão de.) Aos Caudilhos não interessava a instalação de um Estado centralizado, queria suas províncias independentes, porém, unificadas, onde cada chefe caudilho comandasse a economia e a política. Também procuravam combater uma massa de imigrantes vindos da Europa e interessados no comércio e no desenvolvimento de indústrias. Podemos ainda, citar as práticas do Caudilhismo, que geralmente propunham uma lógica diferenciada, entre civilização x barbárie, Unitarismo x Federalismo e cidade x campo.
         Para concluir, podemos dizer que o Caudilhismo foi na verdade um fenômeno que desafiava o Estado e se perpetuava através da força dos líderes locais e da capacidade de aceitação e contentamento das massas que apoiavam esses caudilhos.

OS GRANDES LÍDERES CAUDILHOS:
         Entre muitos dos líderes caudilhos que existiram, podemos dar destaque a alguns deles, principalmente por terem possuído papel definitivo como líderes na luta pela Independência, entre eles podemos citar:
·             Juan Manuel de Rosas na Argentina: Foi um dos principais (se não o principal) caudilhos na região platina, grande latifundiário da província de Buenos Aires. Governou de 1829 a 1852, combatendo as idéias liberais. Era representante de um ideal consevador-federalista e detinha o controle da navegação no Rio da Prata e do porto de Buenos Aires. Representava quase como um presidente as Províncias Unidas do Rio da Prata. Sarmiento ao escrever sobre Rosas criticava o Caudilhismo e classificava-o como barbárie. (LIMA, Camila Imaculada S., e NOGUEIRA, Gabriel Parente.). Juan Manuel de Rosas utilizou métodos de censura, intimidações execuções e banimento para realizar um dos seus primeiros objetivos que era pacificar a província de Bueno Aires. Empenhou-se também em fazer investidas contra os indígenas para proteger a fronteira, além de introduzir o ensino obrigatório da religião católica nas escolas e criar novos impostos para garantir um orçamento destinado a obras públicas. Com seu exército formado em maior número por peões, conquistou vastas extensões de terra, através de batalhas, diplomacia e negociações, garantindo novas fontes de renda (pastagens, água em abundância, etc.) para os agricultores. (CHALUPA, Jirí.).
·             José Artigas no Uruguai: Foi um chefe político e militar. Surge num contexto em que Elio, que era governador de Montevidéu entrou em guerra contra a Junta Revolucionária de Buenos Aires. Artigas então começou sua luta contra Elio. José Artigas era um importante negociante de couros e conhecia toda a região, isso deu-lhe certa facilidade de ação. Ele não admitia a permanência do domínio da Espanha sobre o Uruguai. Defendia o Federalismo como forma de governo e a autonomia das províncias: Fazendo referência, cito ABADIE num trecho da obra de RECKZIEGEL: O artiguismo defendia a idéia de coordenação autônoma das províncias, em contraposição ao preceito de subordinação centralizada proposta por Buenos Aires.” (ABADIE, Reyes.) Artigas participou das batalhas de San José e Las Piedras, contra os espanhóis e das batalhas contra os lusos-brasileiros: a de Catalán e a de Tucuarembó, onde acabou definitivamente derrotado, procurando asilo no Paraguai.
·             Simon Bolívar em toda a América Latina Espanhola: Bolívar foi um revolucionário que brigava pela reforma social e contra a política imperialista: "O novo mundo deve estar constituído por nações livres e independentes, unidas entre si por um corpo de leis em comum que regulem seus relacionamentos externos" (Frase dita por Bolívar, fonte: Wikipedia) Ele tentou promover uma integração continental, foi proclamado “libertador” ao liderar a invazão da Venezuela.
·             Justo José de Urquiza na Argentina: Foi governador de Entre Rios, a princípio apoiou e ajudou a sustentar Rosas no poder, porém, mais tarde, receoso por Rosas dominar as demais províncias acabou por rebelar-se contra ele. Fez melhorias na Educação, construiu ferrovias, organizou a nação sempre tendo como principal opositora a província de Buenos Aires.
        Além destes caudilhos, podemos citar outros, como Mariano Melgarejo, Antonio López de Santa Anna, Gaspar Rodríguez de Francia, Manuel Oribe, etc.









REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
ANOTAÇÕES DE AULA. História da América - 6º semestre, 2009/10.
AQUINO, Rubim Santos Leão de., LOPES, Oscar Guilherme Pahl Campos., LEMOS, Nivaldo Jesus Freitas De. História das sociedades americanas. Rio de Janeiro: Editora Livraria Eu e Você, 1997.
BETHELL, Leslie (org). História da América Latina. Tomo III – Da Independência até 1870. SãoPaulo: Edusp, 2001. Disponível em: http://www.scribd.com/doc/20282297/Bethell-Leslie-et-al-Historia-de-America-Latina-tomo-3-1984 (Consulta em 23/01/10)
CHALUPA, Jirí. El Caudillismo Rioplatense del Siglo XIX: Análisis del Caso Concreto de Juan Manuel Ortiz de Rosas (1793–1877). Acta Universitatis Palackianae Olomucensis. Disponível em: http://publib.upol.cz/~obd/fulltext/Romanica-8/Romanica-8_07.pdf (Consulta em 23/01/10).
FAVROD, Chales-Henri. L’Amerique Latine A América Latina. Tradução de ARAÚJO, António. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1977.
HISTÓRIA, Cadernos de. Memorial do RS. Os Caudilhos no Rio Grande do Sul. Universidade Integrada do Alto Uruguai e das Missões. Disponível em: http://www.memorial.rs.gov.br/cadernos/Caudilhos.pdf (Consulta em 23/01/10)
LIMA, Camila Imaculada S., NOGUEIRA, Gabriel Parente. A Formação do Estado-Nacional Argentino e a Construção da Identidade Nacional. Ceará: Ameríndia – UFC, 2006. Disponível em: http://www.amerindia.ufc.br/articulos/pdf1/gabriel.pdf (Consulta em 23/01/10).
RECKZIEGEL, Ana Luiza Setti. A Instalação do Estado Nacional e as Tensões Fronteiriças: Uruguai e Rio Grande do Sul no período 1822-1851. Passo Fundo: UPF, Brasil. Disponível em: http://www.fee.tche.br/sitefee/download/jornadas/1/s2a1.pdf (Consulta em 23/01/10).
WIKIPÉDIA, A Enciclopédia Livre. Caudilhismo: http://pt.wikipedia.org/wiki/Caudilhismo e Caudilho: http://pt.wikipedia.org/wiki/Caudilho (Consulta em 23/01/10).