quarta-feira, 15 de maio de 2013

FICHAMENTO DO TEXTO: "A HISTÓRIA CULTURAL: ENTRE PRÁTICAS E REPRESENTAÇÕES", DE ROGER CHARTIER

CHARTIER, Roger. A História Cultural: entre práticas e representações. Tradução Maria Manuela Galhardo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1990. 


- Nos anos 60 e 70, a história era então institucionalmente dominante e se encontrava intelectualmente ameaçada. (p. 13)
- O desafio lançado à história pelas novas disciplinas assumiu diversas formas, umas estruturalistas, outras não, mas que no conjunto puseram em causa os seus objetos – desviando a atenção das hierarquias para as relações, das posições para as representações – e as suas certezas metodológicas – consideradas mal fundadas quando confrontadas com as novas exigências teóricas. (p. 14)
- A resposta dos historiadores foi dupla. Puseram em prática uma estratégia de captação, colocando-se nas primeiras linhas desbravadas por outros. (p. 14)
- Nessa captação não pôs-se de lado nada da base do sucesso da disciplina, determinado pelas renovações audaciosas do tratamento serial dessas fontes massivas (registros de preços, registros paroquiais, etc.). (p. 15)
- A investigação da cultura popular, os números e a quantificação, a longa duração, a divisão social, os fatos da mentalidade são características da história cultural, que conciliou novos domínios de investigação com fidelidade aos postulados da história social, como estratégia da própria disciplina. (p. 15)
- A história cultural, tal como a entendemos, tem por principal objeto identificar o modo como em diferentes momentos uma determinada realidade social é construída, pensada, dada a ler. O primeiro diz respeito às classificações, divisões e delimitações que organizam  a apreensão do mundo social como categorias fundamentais de percepção e de apreciação do real. (p. 17)
- As representações do mundo social assim construídas, embora aspirem à universalidade de um diagnóstico fundado na razão, são sempre determinadas pelos interesses de grupo que as forjam. (p. 17)
- As lutas de representações tem tanta importância como as lutas econômicas para compreender os mecanismos pelos quais um grupo impõe, ou tenta impor, a sua concepção de mundo social, os valores que são os seus, e o seu domínio. (p. 17)
- Os debates recentes entre os defensores da micro-história ou dos estudos de caso e os da história sociocultural serial, herdeira direta da história social, ilustram bem essa polarização construtiva do campo das ciências sociais. (p. 18)
- A noção de representação coletiva, entendida no sentido que lhe atribuíam, permite, conciliar as imagens mentais claras com os esquemas interiorizados, as categorias incorporadas, que a gerem e estruturam. (p. 19)
- Dessa forma, pode pensar-se uma história cultural do social que tome por objeto a compreensão das formas e do motivos que, à revelia dos atores sociais, traduzem as suas posições e interesses objetivamente confrontados e que, paralelamente, descrevem a sociedade como pensam que ela é, ou como gostariam que fosse. (p. 19)
- Será necessário identificar como símbolos e considerar como simbólicos todos os signos, atos e objetos? (p. 19)
- Propomos que se tome o conceito de representação num sentido mais particular e historicamente mais determinado. A representação como dando a ver uma coisa ausente, distinguindo o que representa e o que é representado, a representação como exibição de uma presença, como apresentação pública de algo ou alguém. (p. 20)
- A representação é instrumento de conhecimento mediato, que faz ver um objeto ausente através da sua substituição por uma imagem capaz de o reconstituir em memória e de o figurar tal como ele é. (p. 20)
- Port-Royal coloca os termos de uma questão histórica fundamental: a da variabilidade e da pluralidade de compreensões (ou incompreensões) das representações do mundo social e natural propostas nas imagens e textos antigos. (p. 21)
- (...) é necessário inscrever a importância crescente adquirida pelas lutas de representações onde o que está em jogo é a ordenação, logo a hierarquização da própria estrutura social. (...) a história cultural pode regressar utilmente ao social, já que faz incidir a sua atenção sobre as estratégias que determinam posições e relações e que atribuem a cada classe, grupo ou meio um ser-apreendido constitutivo da sua identidade. (p. 23)
- A representação pode ser construída a partir das acepções antigas. (p. 23)
- A definição de história cultural pode, nesse contexto, encontrar-se alterada. Por um lado, é preciso pensá-la como a análise do trabalho de representação, isto é, das classificações e das exclusões que constituem, na sua diferença radical, as configurações sociais e conceptuais próprias de um tempo ou de um espaço. (p. 27)

FICHAMENTO DOS CAPÍTULOS 1 - "UMA HISTÓRIA PRESENTE", DE RENÉ RÉMOND, e 7 - "A MÍDIA", DE JEAN-NOËL JEANNENEY, DO LIVRO INTITULADO "POR UMA HISTÓRIA POLÍTICA", DE RENÉ RÉMOND

RÉMOND, René. Por uma história política. 2. Ed. Rio de Janeiro: Editora PGV, 2003. (p. 13-36 e 213-225)

Capítulo 1 – Uma História Presente – René Rémond

- Existe uma história da história que carrega o rastro das transformações da sociedade e reflete as grandes oscilações do movimento das idéias. E por isso que as gerações de historiadores que se sucedem não se parecem (...). (p. 13)
- Era inevitável que o desenvolvimento da história econômica ou social se fizesse às custas do declínio da história dos fatos políticos (...). (p. 14)
- (...) a explicação dessas oscilações está na relação entre a realidade observada e o olhar que a observa. (p. 14)
- A renovação que há meio século marcou tão profundamente na França a disciplina histórica teve como alvo principal e primeira vítima a história política. (p. 15)
- Desejosa de ir ao fundo das coisas, de captar o âmago da realidade, a nova história considerava as estruturas duráveis mais reais e determinantes que os acidentes de conjuntura. (p. 16)
- A história política apresentava uma configuração que era exatamente contrária a essa história ideal. Estudo das estruturas? Ela só tinha olhos para os acidentes e as circunstâncias mais superficiais (...). (p. 16)
- A função do historiador é interrogar e formar hipóteses explicativas sobre os fatos, enquanto a história política permanecia narrativa, linear. (p. 17)
- A história política era elitista, aristocrática, condenada pelo ímpeto das massas e o advento da democracia. Anedótica, individualista, essa história incorria ainda no erro de cair no idealismo. (...) reunia assim todos os defeitos do gênero de história do qual uma geração almejava encerrar o reinado e precipitar a decadência.  (p. 18)
- Barrès: A política em si não passava de uma pequena coisa na superfície do real: a verdadeira realidade não estava ali. (p. 19)
- As novas orientações da pesquisa histórica estavam em harmonia com o ambiente intelectual e político. O advento da democracia política e social, o impulso do movimento operário, a difusão do socialismo dirigiam o olhar para as massas.
- Marx e Freud, cada um à sua maneira e por vias diferentes, contribuíram igualmente para acabar com o prestígio da história política. (p. 20)
- O Estado jamais passa de instrumento da classe dominante; as iniciativas dos poderes públicos, as decisões dos governos são apenas a expressão da relação de forças. Ater-se ao estudo do Estado como se ele encontrasse em si mesmo o seu princípio e a sua razão de ser é portanto deter-se na aparência das coisas. (p. 20)
- Há duas ou três décadas, esboçaram-se os sinais anunciadores, e depois multiplicaram-se as manifestações de um retorno com força total. (p. 21)
- A história de fato não vive fora do tempo em que é escrita, ainda mais quando se trata da história política: suas variações são resultado tanto das mudanças que afetam o político como das que dizem respeito ao olhar que o historiador dirige ao político. (p. 22)
- (...) a política tinha uma incidência sobre o destino dos povos e as existências individuais; contribuíram para dar crédito à idéia de que o político tinha uma consistência própria e dispunha mesmo de uma certa autonomia em relação aos outros componentes da realidade social. (p. 23)
- Outra coisa atuou no mesmo sentido para reintegrar os fatos políticos ao campo de observação da história: a ampliação do domínio da ação política com o aumento das atribuições do Estado. (p. 23)
- À medida que os poderes públicos eram levados a legislar, regulamentar, subvencionar, controlar a produção, construção de moradias, a assistência social, a saúde pública, a difusão da cultura, esses setores passaram, uns após os outros, para os domínios da história política. (p. 24)
- Algumas pessoas passaram assim alegremente da constatação de que o político está em toda parte à idéia de que tudo é político. (p. 25)
- O movimento de 1968 não contribuiu pouco para conduzir o político ao primeiro plano da reflexão. (p. 26)
- Charles Seignobos foi um dos primeiros a se dar conta de dois fatos importantes cuja constatação foi determinante nas origens da sociologia eleitoral: a diversidade dos temperamentos políticos regionais e a antiguidade de seu enraizamento. (p. 27)
- (...) a história política deve bastante às trocas com outras disciplinas: sociologia, direito público, psicologia social, e mesmo psicanálise, lingüística, matemática, cartografia e outras de que esqueço. (p. 29)
- A ciência política, conjugando seus efeitos com a sociologia, obrigou o historiador a formular perguntas que renovam as perspectivas. (p. 30)
- Um dos atributos de que a história à nova maneira se orgulha mais legitimamente, um de seus títulos para pretender à cientificidade, é o de basear-se numa massa documental que ela trata estatisticamente. (p. 32)
- Durante muito tempo censurou-se a história política por só se interessar elas minorias privilegiadas e esquecer o povo, as multidões, as massas, o grande número. (p. 33)
- Uma terceira característica manteve durante muito tempo a história política afastada (...). Comparada às histórias da população, da instituição familiar, do trabalho, dos costumes e crenças, que tinham todas por objeto os fenômenos cuja evolução estava ligada a longa duração, a história dos fatos políticos aparecia como uma história do efêmero e do instante. (p. 34)
- As pesquisas sobre o abstencionismo, os estudos sobre a socialização, as investigações sobre o fato associativo, as observações sobre as correspondências entre prática religiosa e comportamento eleitoral contribuem para ressaltar tanto a variedade quanto a força das interações e interferências entre todos esses fenômenos sociais. (p. 36)

Capítulo 7 – A Mídia – Jean-Noël Jeanneney
- No front da história política renovada, o setor dos meios de comunicação não é o mais ardorosamente trabalhado. (p. 213)
- A história da imprensa escrita carrega assim de saída o handicap de um desequilíbrio da documentação: de um lado a massa imensa de papel impresso e, em contraste, uma mediocridade geral dos arquivos de empresas que permitiriam descrever a instituição do jornal, suas finanças, seus métodos de recrutamento, suas ligações cotidianas com os diferentes poderes. (p. 214)
- Se nos voltamos para a imprensa audiovisual, a situação é ainda piro: pois são muito mais difíceis – ao mesmo tempo dispendiosas e penosas – a conservação e a consulta dos arquivos de imagem e de som. (p. 215)
- Durante muito tempo, a curiosidade concentrou-se nesta pergunta simples: qual é a influência da mídia sobre a opinião pública e quais são os meios de que o Estado, os governantes, os partidos políticos, os grupos de pressão dispõem para pressionar a imprensa escrita, falada ou televisiva e, através dela, a opinião pública? (p. 215)
- É certo que a imprensa desempenha um papel na evolução dos comportamentos políticos – e, mais violentamente, dos votos -, mas os dirigentes tendem espontaneamente a exagerar muito isso. (p. 216)
- (...) bem sabemos que em história política uma idéia falsa vira depressa um fato verdadeiro. (p. 218)
- Sobre a verdade da influência dos poderes públicos e dos diversos grupos de pressão sobre a mídia, duas abordagens são possíveis e complementares. A primeira consiste em estudar, no tocante à imprensa escrita, o dinheiro mais ou menos oculto que a irriga. (p. 219)
- A segunda abordagem corresponde a uma visão mais fisiológica das coisas. (p. 220)
- A novidade introduzida pelos socialistas foi colocar o rádio e a televisão públicos a serviço da nação inteira e não de um governo ou uma maioria – sempre passageiros, na democracia. (p. 220 e 221)
- A eloqüência dos políticos foi certamente modificada por isso – a forma, a expressão, o vocabulário e a sintaxe, e talvez também seu gestual, sua maneira de se vestir e de se mover... (p. 221)
- É preciso sobretudo prestar atenção aos vínculos múltiplos que aproximam os atores da mídia de todos os outros. (...) Essas observações referem-se ao conjunto dos produtores da informação. Mas o estudo do produto tampouco deve ser esquecido. (p. 222 e 223)
- Para concluir, tomemos cuidado: o estudo das relações de poder, conflitantes ou convergentes, entre os meios de comunicação e o Estado, entre os meios de comunicação e a nação como um todo, não deve se furtar a considerar as instituições de comunicação em si mesmas. (p. 224)

FICHAMENTO DO CAPÍTULO INTITULADO "MICRO-HISTÓRIA", DE HENRIQUE ESPADA LIMA, DO LIVRO "NOVOS DOMÍNIOS DA HISTÓRIA", ORGANIZADO POR CIRO FLAMARION CARDOSO E RONALDO VAINFAS

LIMA, Henrique Espada. Micro-História, in: CARDOSO, Ciro Flamarion; VAINFAS, Ronaldo. Novos Domínios da História. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012.

- O capítulo tenta localizar o debate e seus protagonistas e compreender o significado da micro-história e suas transformações;
Quem faz o debate e da onde surge?
- Tem seus contornos iniciais na Itália dos anos 70 e 80 e é articulado com a história social do país. (p. 207)
- Em 1950 há uma internacionalização da pesquisa histórica e da mobilidade dos pesquisadores: inicia uma troca historiográfica entre a França e a Itália e entre 1950-1960 a história social na Itália é construída com bases de interesse pela historiografia internacional e diálogo com as ciências sociais. Ao mesmo tempo, triunfaram os grandes modelos interpretativos das Ciências Sociais. (p. 208)
- Conseqüência do diálogo com as Ciências Sociais: a multiplicação de estudos sócio-históricos, demográficos e econômicos, baseados em pesquisas quantitativas e seriais que exercem impacto sobre os métodos e temas dos historiadores. (p. 208)
- História marcada pela aproximação “científica”, “quantitativa” e “estrutural” do passado, e pelo “questionário” que seria completo para enfrentar os desafios interpretativos da compreensão do presente e da história. Essa idéia é compartilhada pelos marxistas e liberais. (p. 209)
- Na Itália, a relação da historiografia com as matrizes da história social não era homogênea. Ex: Aproximação com os Annales. Ainda que Braudel e os grandes modelos interpretativos ocupassem a discussão dos historiadores, a permanência dessas estruturas era questionada. Outro exemplo, é o interesse dos italianos pelo debate inglês da história social. (p. 209)
- A agenda política do operariado industrial soma-se à intensificação de outras agendas políticas: lutas anti-coloniais, anti-racistas, movimentos feministas, estudantis, etc. Esse quadro político cultural é vivido intensamente na Itália. (p. 210)
- Resultado desse momento no campo da história social: multiplicação de temas e “explosão de história”. (p. 210)
- A origem única para a micro-história não pode ser apontada. No caso da Itália são diversos fatores: circulação de pesquisadores, livros e idéias, criação de áreas de pesquisa nas universidades, nascimento de revistas... (p. 210)
- Revistas: Storia d’Italia (1972): Ruggiero Romano e Corrado Vivanti, formados na França e ligados aos Annales; Quaderni Storici (1970): Contava com nomes como Edoardo Grendi, Geovani Levi, Carlo Ginzburg, Luisa Accoli, Carlo Poni... (p. 211)
- Quaderni Storici traz debates da história social em temas clássicos, como modelos econômicos e história agrária, e também em novos temas, como a história da família, da comunidade, demografia histórica, folclores, cultura material, história e antropologia e história oral. (p. 211)
- Edoardo Grandi traz um artigo denominado “Micro análise e História Social”, publicado em 1977. É o primeiro momento em que descreve mais claramente uma proposta metodológica em torno da idéia de microanálise social.
- Grendi dizia que a história social necessitava levar a sério a lição da antropologia, voltada para a análise das relações sociais, políticas e culturais, a partir da referência empírica recolhida na observação direta.
- Embate: recusa ao uso anti-histórico de categorias analíticas como “classe” (marxista) e “mercado” (liberal).
- Crítica aos modelos interpretativos da transformação histórica definidos por uma hierarquia de relevâncias predefinidas. (p. 213)
- Insatisfação com os modelos da história econômica e com o Marxismo, que marcava as interpretações sobre a transformação social e lógica das associações sociais. (p. 213)
- A partir de 1970, alguns historiadores passam a dar conteúdo empírico ao tema da microanálise histórica. (p. 213)
- 1979 - Carlo Poni e Ginzburg: “O nome e o como: troca desigual e o mercado historiográfico.” Artigo para os Annales. (p. 213)
- Os autores italianos atribuíam o interesse crescente pela micro-história, pois os grandes modelos interpretativos da história social foram colocados sob suspeita pelas transformações políticas e sociais. (p. 213)
- A micro-história aparecia como uma resposta a essas insatisfações, aceitando o desafio de construir uma história impregnada de Antropologia, voltada a investigar as dimensões negligenciadas pela experiência história. (214)
- 1979, em “Sinais: raízes de um paradigma indiciário”, Ginzburg discutia a emergência de um paradigma científico alternativo nas Ciências Humanas do século XIX. A História, que estava ligada a elementos singulares, individuais e irrepetíveis, se contrapunha à física e ciência moderna, cujo conhecimento científico era representado pelas regularidades e universalidades.
- Livro “O queijo e os vermes” é um exemplo de micro-história.
- No fim da década de 1970, a micro-história toma forma como uma frente diversificada de investigação, diferente de uma “escola” ou “proposta metodológica”. Faltava preenchê-la.
- 1981 - Carlo Ginzburg e Giovanni Levi: “Microstorie”. Propunham a micro-história a partir de uma chave plural e amplamente experimental. Ênfase na complexidade da realidade cuja análise atenta seria capaz de produzir tanto quadros interpretativos quanto objetos novos de investigação. (p. 215)
- 1985 - Givanni Levi: “Herança Imaterial”, publicado na mesma coleção, mobilizava uma pesquisa empírica aliada a uma problematização sofisticada em intercâmbio com a antropologia social e econômica e a história social, em diálogo com diversos autores. (p. 217)
- Uma das marcas da análise proposta por Levi encontrava-se na atenção sobre as “estratégias” de indivíduos e grupos, seu uso consciente (ainda que limitado) dos recursos materiais e imateriais, sua capacidade de agir nos interstícios e descontinuidades dos sistemas normativos e das estruturas sociais. (p. 217)
- Micro-história nunca adquiriu um prestígio tão grande na Itália como angariou em outros lugares. (p. 218)
- O reequilíbrio das trocas historiográficas introduziu o debate da micro-história em um horizonte mais amplo de rediscussão da história social, sobretudo a partir da década d 1980. (p. 219)
- Na França, a recepção da micro-história foi marcada pela colaboração mais próxima e pelo interesse recíproco marcado pela discussão sobre a microanálise social e suas dimensões metodológicas.
- Jacques Revel foi um dos responsáveis pelo trânsito historiográfico entre a França e a Itália na década de 1980.
- Revel reconhecia a pretensão intelectual da micro-história de recusa à compreensão do “social” ou do “contexto”, como se queira (social, cultural ou outro) – como uma realidade de contornos previamente definidos e estruturados, que o historiador reconhece e na qual deve simplesmente encontrar o lugar coerente do seu objeto de pesquisa. (p. 219)
- A pretensão estava exatamente em “revelar” por intermédio do estudo intensivo em escala a reduzida da trama fina do tecido social, dimensões desconhecidas desse “contexto” e da dinâmica completa das suas transformações. (p. 219)
- Escala: conceito de um antropólogo que passa a ser utilizado. A alteração controlada da escala de observação poderia ser uma operação que permitiria colocar em relevo e explorar em detalhe aspectos fundamentais de um problema de pesquisa de qualquer dimensão. (p. 219)
- Jogo de escalas proposto pela micro-história é ponto crucial de sua capacidade de renovar métodos e objetos de investigação. (p. 219)
- Jogos de escalas - Giovani Levi – questões e posições comuns à micro-história: redução da escala, debate sobre racionalidade, pequena indicação como paradigma científico, papel do particular, atenção à capacidade receptiva e à narrativa, definição específica do contexto e rejeição ao relativismo.
Micro história e suas transformações:
- De início, a micro-história pretendia insurgir contra as simplificações  totalizantes de uma história social, queria dar atenção aos grupos marginais. Seu programa original foi alterado incorporando novas questões.
- Levi: capacidade de a micro-história produzir perguntas capazes de serem transportadas para contextos espaciais e temporais distintos.
- 1980: micro-história entra no debate brasileiro.
- Sua proposta sempre foi a de considerar a realidade histórica de um modo mais rico e complexo, olhando aspectos da realidade em escala reduzida, com novas perguntas e novas respostas, qualificar a compreensão geral dos processos e ampliar limites do poder histórico.

FICHAMENTO DO CAPÍTULO 7: "A VENDA DE ESPOSAS", DO LIVRO "COSTUMES EM COMUM", DE E. P. THOMPSON

THOMPSON, E. P. Costumes em comum. Capítulo 7 – A venda de esposas. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. (p. 305 – 348)

- 1850: Nenhum inglês queria lembrar de uma prática tão bárbara; The book of days (1878): coloca a “culpa” na população rural; Franceses representavam os ingleses com brutalidade. (p. 305)
- As fontes para o estudo são enigmáticas e opacas; Tanto no The book of days e no The mayor of Casterbridge os relatos não mostram ritualização e sim a compra direta de um bem. (p. 306)
- Thompson encontra 300 casos; Menefee encontra 387 casos; Os dois compartilham da redefinição do ritual de venda de esposas como uma espécie de divórcio; Menefee escreve o texto como aprendiz de etnógrafo, sem conhecimento do contexto social histórico. Alguma parte do seu material é contraditório e irrelevante. (p. 307)
- Thompson coleta 300 casos e rejeita 50, resultando em 250 casos. Menefee coleta 387 casos, mas destes, Thompson considera “confiáveis” apenas 300. Na somatória das duas coletas, aproximadamente 150 casos se repetem nas descrições dos dois autores. Então a somatória final de casos equivale a aproximadamente 400. (308)
- Os primeiros exemplos não fornecem nenhuma evidência quanto à natureza da prática. (p. 308)- Aparentemente havia duas formas principais de realizar a venda de esposas. A primeira forma era em praça pública e a segunda forma, em uma taverna. A segunda forma substitui a primeira em 1830-1840 (p. 309)
- Quando a venda de esposas se tornou visível e relevante à classe média e ao público refinado para que fosse digna de uma nota na imprensa? Talvez a resposta esteja relacionada com as mudanças na consciência social, nos padrões morais e nos valores. Na imprensa se tornou freqüente no início do século XIX.  (p. 309)
- Mas há razões para crer que antes de 1790 a venda de esposa já fosse praticada. O costume foi pouco noticiado, pois não era considerado digno de registro. O silêncio pode ter ocorrido por ignorância e indiferença a um costume tão comum que não exigia comentários ou aversão. (p. 310)
- O clímax de vendas parece ser na década de 1830, porém, não podemos confiar nesses dados, pois o ritual já acontecia muitos anos antes, porém não era tão noticiado. (p. 310)
- Os casos de vendas de esposas se espalham por diversas regiões. (p. 311)
- O consenso da opinião esclarecida na metade do século XIX era de que a prática existia apenas nas camadas populares, principalmente nas zonas rurais afastadas. (p. 312)
- Os casos que ocorriam nas classes mais elevadas recebiam duras críticas da imprensa. As mulheres eram descritas mais pela aparência do que pela ocupação. (p. 313)
- Trocas eram feitas por cerveja, animais (burro, cachorro), e dinheiro (xelins); Algumas notícias são abreviadas, outras são sensacionalistas e de forma bem completa. (p 314)
- Formas rituais da venda de esposa:
a) A venda deveria ocorrer numa praça de mercado ou outro local de comércio. Se não fosse em um desses locais, talvez a venda não fosse reconhecida perante a sociedade e tornava-se ilegal. (p. 315 e 316)
b) Venda precedida por anúncio público. (p. 316)
c) A corda era essencial para o ritual. Presa no pescoço ou na cintura. A corda era um elemento para transferência legal. (p. 316)
d) No mercado deveria haver uma espécie de leiloeiro. Podia ser o marido, um funcionário do mercado, etc. Leiloeiro muitas vezes elaborava elogios à mulher. (p. 318)
e) Deveria haver troca de algum dinheiro, não interessando o valor. (p. 320)
f) No momento da entrega da corda às vezes se faziam juramentos parecidos ao de uma cerimônia de casamento. (p. 320)
- Muitas vezes se confeccionavam documentos, que eram guardados como certidões, como prova de respeitabilidade. (p. 321)
- Para a moral cristã a venda de esposas era altamente ilegal e imoral e tinha tendência a menosprezar o matrimônio. (p. 322)
- O autor diz ter de retirar a venda de esposas da categoria de uma brutal venda de gado e colocá-la na categoria de uma espécie de divórcio seguido de novo casamento. (p. 323)
- O consentimento da esposa era condição necessária para a venda. Muitas vezes, apesar da venda ser feita em um aparente leilão, o comprador já havia sido predeterminado e já era o amante da esposa. (p. 323)
- Pergunta: se tanto a esposa como o marido podiam de vez em quando recorrer à fuga e ao abandono do lar, por que os dois ainda achavam necessário passar pelo ritual público (e vergonhoso) da venda?
- Autor classifica os dados:
a) Sem o consentimento da esposa: Não estou sugerindo que as esposas não fossem às vezes vendidas sob coerção, mas que, se elas claramente repudiavam a transação, a venda não era considerada válida de acordo com a tradição e a sanção dos costumes. (p. 328)
b) Com o consentimento da esposa: Relatos de esposas felizes. (p. 329)
c) Sem informação: Sem informação sobre o consentimento das esposas. (329)
d) Divórcio arranjado: Casos em que as esposas foram vendidas aos seus parentes. (p. 329)
e) Esposa vendida ao amante: Nenhum caso explícito. (p. 330)
- Havia certa burocracia no ritual: consentimento da mulher, má conduta, comprador deveria ser solteiro, matrimônio em crise. (p. 331)
- O ritual da venda de esposa era provavelmente uma “tradição inventada”. Talvez só tenha sido inventada no final do século XVII, e possivelmente até mais tarde. Sem dúvida, havia exemplos de venda de esposas antes de 1660, mas não sei de nenhum caso que forneça evidência clara do leilão público e da corda. (p. 333)
- Isso não sugere um costume antigo de origem esquecida ao longo dos séculos, mas a pressão de novas necessidades que buscavam um ritual para se expressarem. A venda de esposas surgira como conseqüência das guerras, com a separação e as ovas ligações amorosas que daí advinham. (p. 333)
- Condições para a venda, que era mais plausível que um divórcio formal: declínio da vigilância da Igreja e seus tribunais sobre a conduta sexual; consentimento da comunidade plebéia em relação à culta; autoridade civil distanciada, desatenta ou tolerante. (p. 334)
- Não havia divórcio possível para o povo inglês ou galês. A venda era uma alternativa. (p. 334)
- Por vezes a venda de esposas tem sido apresentada como um ritual de brutalidade. Mas a cultura plebeia, crédula e supersticiosa tinha em alta os rituais e as formalidades. (p. 335)
- O ritual da venda muitas vezes amenizava as críticas da comunidade. (p. 336)
- O público presente também tinha um papel. Como se fosse uma peça de teatro aprovavam ou reprovavam o acontecimento. (p. 339)
- Magistrado do século XIX sobre a venda de esposas: “quanto ao ato da venda em si, acho que não tenho o direito de impedi-la [...] porque está fundamentada num costume preservado pelo povo, do qual seria talvez perigoso privá-lo.” (p. 340)
- A partir de 1830 a prática começa a declinar. Talvez por uma maior interferência dos magistrados e também por ter declínio na legitimidade popular. A antiga cultura plebeia estava perdendo a autoridade interna, tendo que lidar com incertezas quanto às suas próprias sanções e códigos. (p. 341)
- Crítica feminista ao trabalho de Thompson: O meu título, “A venda de esposas”, levara o público a esperar uma pesquisa erudita sobre mais um exemplo da miserável opressão das mulheres. Mas o meu material não se ajustava (e não se ajusta) exatamente a esse estereótipo. (p. 344)
- Mesmo se redefinirmos a venda das esposas como divórcio consentido, era a troca de uma mulher entre dois homens. Mas as vendas não precisavam favorecer o marido. (p. 345)
- Nessas comunidades proto-industriais, as relações entre os sexos estavam passando por mudanças. Ainda não é apropriado usar um vocabulário de “direitos”; talvez “valor” ou “respeito” sejam os termos de que precisemos. (p. 346)
- Quanto às mulheres: Talvez não fossem os “direitos” de hoje em dia, mas elas não eram sujeitos passivos da história. (p. 346)       


RESENHA DO LIVRO: "A HISTÓRIA OU A LEITURA DO TEMPO", DE ROGER CHARTIER

CHARTIER, Roger. A história ou a leitura do tempo. 2.ed. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2010.

Roger Chartier em A história ou a leitura do tempo faz uma análise em 9 capítulos, sobre a historiografia nas últimas décadas, levando em consideração a chamada crise da história, abordando as questões relacionadas com a micro-história, a história global e a história na era digital. Ao falar nas mutações da disciplina histórica pós 1988, Chartier lembra que até esta data dominavam duas formas da chamada história cultural: a história das mentalidades e a história quantitativa e que ele propõe novos modelos para superar essas duas formas. Também cita obras de três autores: Paul Vayne (1971), Hayden White (1973) e Michel Certeau (1975), para analisar as dimensões, retórica e narrativa da história. Segundo ele, ao levantarem questões sobre o que é a história, como é pesquisada e escrita, esses autores acabam por anunciar uma crise que viria ocorrer nos anos 1980 e 1990. Antes de mais nada, é preciso dizer que A história ou a leitura do tempo é uma continuação das reflexões iniciadas em À beira da falésia (1998), onde Chartier tenta responder à essa suposta “crise da história”, pois assim como outros historiadores percebe a necessidade de uma resposta às criticas que colocam a cientificidade histórica à prova. Segundo Ginzburg prova e retórica não são antinômicas e estão indissociavelmente ligadas e desde o Renascimento a história soube através de técnicas separar o verdadeiro do falso. Apoiado nessa idéia de Ginzburg, Chartier procura responder à concepção da história transformada em mero texto literário, colocada como uma falsa ciência: “reconhecer as dimensões retórica ou narrativa da escrita da história não implica, de modo algum, negar-lhe sua condição de conhecimento verdadeiro, construído a partir de provas e de controles.” (p. 13) Chartier também aborda as concepções como o paradigma indiciário e a micro-história, trabalhadas por diversos autores, numa tentativa de retomar o valor e cientificidade da história: “Todas essas perspectivas, por mais diferentes que sejam, se inscrevem em uma intenção de verdade que é constitutiva do próprio discurso histórico.” (p. 14) Seguindo o texto, Chartier passa a abordar os conceitos de história e memória, e apoiado na obra de Paul Ricoeur, relaciona três diferenças entre os conceitos. Fala do questionamento existente à representação da história, pela distância entre o passado representado e as formas de discurso que o representam, e torna a defender a verdade da disciplina histórica citando as propostas de Ricoeur para distinguir as fases da operação historiográfica: o estabelecimento da prova documental, a construção da explicação e a colocação em forma literária. (p. 23) Em seguida busca aprofundar a distinção entre história e ficção: enquanto a ficção informa o real, a história representa. Fala ainda sobre a cultura popular e a cultura letrada, e sobre a história global, que rejeitava o marco de Estado-Nação e os recortes tradicionais e o enfoque micro-histórico, o que dificultava as práticas de historiadores. Por último, ele faz uma abordagem sobre a história na era digital e seus desafios e finaliza abordando a capacidade da história em distinguir e articular os diferentes tempos.

FICHAMENTO DO TEXTO: "GROUPS OR GATHERINGS? SOURCES OF POLITICAL ENGAGEMENT IN 19TH CENTURY AMERICAN CITIES." (GRUPOS OU ENCONTROS? FONTES DE ENGAJAMENTO POLÍTICO NO SÉCULO 19, EM CIDADES AMERICANAS.), DE JASON KAUFMAN E STEVEN J. TEPPER

KAUFMAN, Jason, TEPPER, Steven J. Groups or Gatherings? Sources of Political Engagement in 19th Century American Cities. Voluntas: International Journal of Voluntary and Nonprofit Organizations, Vol. 10, No. 4, 1999, p. 299-322.

- Como pode haver democracia? Como os ideais individuais e coletivos muitas vezes contrastantes, podem ser alimentados simultaneamente? Existe uma forma ideal para o governo manter o equilíbrio necessário para esses ideais? Esse trabalho apresenta uma análise de duas abordagens para esse problema, vinculadas ao capital social:
1) A primeira abordagem é o interesse nas associações civis e organizações sem fins lucrativos que através da participação em redes organizadas conseguem ganhar acesso e mobilização nos interesses políticos. Os grupos que constroem um capital social forte dentro das comunidades tendem a formar comunidades mais democráticas a longo prazo;
2) A segunda abordagem acredita que a formação do capital social se dá na disposição espacial das cidades, na criação de espaços públicos que facilitam a interação anônima entre estranhos, É a chamada “interação informal”. (p. 300)
- Cita PUTNAN (1993, p. 167): “Redes, normas e confiança que facilitam a ação e a cooperação para benefício mútuo.” (p. 300)
- Dados quantitativos tentam responder a duas questões:
1) A rica vida associativa está relacionada à maior taxa de participação política?
2) A iteração informal em locais públicos (parques, bares, salões públicos, etc.) influenciam na participação política? (p. 300)
- A primeira abordagem considera a cultura cívica como consequência da troca organizada (participação em organizações voluntárias, associações civis ou qualquer outra organização extra-governamental ou não-comercial). Essa troca organizada promove confiança social e engajamento comunitário. (p. 301) Cita PUTNAN (1995, p. 53): “É mais provável que membros de organizações participem da política do que não-membros.” (p. 301) Nas associações civis os membros aprendem a cooperar e ter responsabilidades um com o outro. A participação política requer a confiança social e essa confiança tem origem nas pequenas interações entre membros de grupos organizados. (p. 301)
- Em contraste com a primeira, está a segunda abordagem que diz que a troca não-organizada, a interação não-formal que fomentam a participação política. Quem defende esse ponto de vista é Habermas (1989). (p. 301)
- SIMEL (1971), também exaltou os benefícios da “sociedade informal”. Parques, mercados, festas, etc., também são espaços para criar redes soltas, onde os cidadãos se engajam em trocas breves, tem contato com diversas pessoas e opiniões e são expostas a uma variedade social, política e cultural. Isso dá aos cidadãos o sentimento de fazer parte de uma grande política. (p. 302)
- Cita MINKOFF (1997, p. 612): “senso de identidade pública, de identidade coletiva.” (p. 302)
- Cita J. B. JACKSON (1987, p. 279): “Aprendemos a agir como cidadãos quando aparecem os espaços públicos.” (p. 302)
- Na verdade, confiar em estranhos e em outros que estamos vagamente ligados é um pré-requisito importante para participação no sistema político. O voto é uma expressão de confiança social geral, bem como a expressão de confiança no “Sistema sem rosto”. (p. 302)
- Na esfera pública, a liberdade e a tolerância são as normas, o que dá às pessoas anonimato, impessoalidade e liberdade para se expressar, participar do debate. Quando as relações são muito íntimas (associações como clubes, etc.) a esfera pública desaparece e a discussão política se torna arriscada. (p. 302)
- Para compreender como os dois tipos de interação social se relacionam com a participação democrática, é preciso comparar as diferentes formas de capital social que cada um produz. (p. 303)
- Algo em comum entre as duas perspectivas é que há uma crença na confiança social como base para participação política, mas existem aí dois contrastes: (p. 303)
1) No intercâmbio organizado (associações), familiaridade e hábito geram confiança; Nas associações os membros sentem que é seu dever como cidadãos, trabalharem juntos votar e participar da vida pública. Nas associações, o cidadão é cooperativo. (p. 304)
2) Na interação anônima ou semi-anônima se produz confiança generalizada. Para confiar no sistema político é preciso aprender a confiar nos estranhos, na sociedade. Nas interações informais a liberdade de expressão a tolerância e a civilidade são importantes e o cidadão é deliberativo. (p. 304)
- JACOBS (1961) diz que as associações de bairros são meios pelos quais os residentes urbanos podem ganhar influências nos assuntos políticos locais. (p. 304)
- BARBER (1998) diz que o espaço público é necessário, mas não é condição para um engajamento político sério. (p. 304)
- Cita NEWTON (1997, p. 581): Nem todos os tipos de organização devem ter o mesmo impacto: “Diferentes tipos de voluntariado podem ter diferentes implicações para o capital social.” (p. 305)
- PUTNAN (1996), discute a importância da horizontalidade das associações, das interações cara-a-cara e rejeita organizações maiores. (p. 305)
- Cita SKOCPOL (1996), que fala sobre federações voluntárias de “temperança feminina”. (p. 305)
- Cita MINKOFF (1997), que defende a importância das grandes organizações nacionais impessoais que facilitariam a ação coletiva e a formação de um “discurso público”. (p. 305)
- Nesse estudo foi utilizado a participação do eleitor como medida do nível de engajamento político da comunidade. Comunidades onde as pessoas não votam são também onde as pessoas nãose destacam em outras formas de participação política. (p. 306)
- Cita WOLFINGER e ROSENSTONE (1980, p. 1): “Para a maioria dos americanos o voto é a única forma de participação política.” (p. 306)
- Foram coletados dados de todas as cidades dos EUA acima de 50 mil habitantes. O período escolhido foi o final do século XIX, por ter riqueza de dados disponíveis sobre a vida associativa e política na América e porque houve um rápido crescimento das cidades americanas. (p. 306)
- As diferenças entre cidades desenvolvidas e subdesenvolvidas eram agudas. O período também apresenta oportunidade para examinar os espaços públicos de diversão e a vida social nas cidades. (p. 307)
- Número de participação de votantes foi comparado ao número de pessoas com direito ao voto. A discrepância entre as cidades, condados e regiões também pode ser uma influência nos resultados do comportamento eleitoral. (p. 308)
- Começa-se a estabelecer um modelo de base satisfatória para a análise usando o modelo de KAUFMAN. Usam outras variáveis para a análise, como etnia, pobreza e educação. Se esperava que imigrantes fossem menos propensos a votar do que os nativos, mas em alguns locais essa tendência foi contrariada. (p. 309)
- Passou-se a distinguir também, os efeitos dos diferentes tipos de associação. Na primeira categoria estão as organizações culturais, artísticas e literárias, onde os membros participam ativamente. Na segunda categoria, estão as sociedades beneficentes, sociedades de socorro mútuo e asilos, onde geralmente os membros apenas fazem doações e não participam de forma direta. (p. 312)
Na terceira categoria estão as congregações religiosas, onde participam pessoas interessadas. Na quarta categoria estão os clubes esportivos, onde alguns membros estão envolvidos e outros não. Já na quinta categoria estão os sindicatos, onde os membros não têm obrigações com o grupo. (p. 313)
- Também foram utilizados dados locais de interação informal (parques, salões públicos, teatros, bares, etc.). A participação de eleitores no final do século XIX não era como atualmente. (p. 314)
- Não parece ser o número de associações voluntárias em geral que determina o voto. Na verdade, os resultados foram mais promissores quando os diferentes tipos de associações voluntárias foram analisados separadamente. A mentalidade cívica não é gerada em sociedades fraternas, beneficentes e religiosas, por exemplo. É nas associações elitistas que encontramos esse efeito. (p. 316)
- As associações mais pessoais, que exigem mais participação dos membros são importantes fontes de ação política. Trabalhar em associações beneficentes ou congregações religiosas envolve grande compromisso com o bem público, um produto essencial na formação de capital social, mas essas atividades não produzem resultados positivos sobre a influência dos eleitores nas estatísticas. Não é o que o grupo faz, mas como ele faz que importa mais. (p. 318)
- O que faz afinal, a democracia funcionar? Que características de uma comunidade leva a uma maior participação dos cidadãos em assuntos políticos?
- Usando dados quantitativos das 39 maiores cidades dos EUA, encontramos mais apoio para a hipótese das associações voluntárias, do intercâmbio organizado, ou seja, das associações formais. (p. 318)
- Participar de uma associação forma exige certos sacrifícios para cumprir certas metas e o resultado social disso é um maior engajamento político. “O capital social, como todas as outras formas de capital, não sai barato.” (p. 320)

RESUMO DO TEXTO: "THE POLITICAL ECONOMY OF INTERDENOMINATIONAL COMPETITION IN LATE-NINETEENTH-CENTURY AMERICAN CITIES." (A ECONOMIA POLÍTICA DA CONCORRÊNCIA INTERDENOMINACIONAL EM CIDADES AMERICANAS FINAL DO SÉCULO XIX-XX.), DE JASON KAUFMAN

KAUFMAN, Jason. The Political economy of interdenominational competition in late-nineteenth-century American cities. Journal of Urban History. V. 28, N. 4, May 2002, p. 445-465.

- A América do Norte se destaca por não ter uma religião sancionada pelo Estado, nem uma tradição dominante. Como o “boom” do associativismo no final do século XIX afetou a vida religiosa nas cidades norte-americanas? Essas questões destacam um elemento religioso americano: o surgimento de organizações voluntárias religiosas para o conforto dos seculares, os seguros de vida coletivos e outros serviços sociais. (p. 445)
- Católicos, protestantes, judeus e outras denominações religiosas ofereceram muitos benefícios semelhantes aos futuros membros e ao fazê-lo, adotaram uma estratégia comum de organização, apesar das diferenças ideológicas. Os católicos e as comunidades judaicas enfrentaram grande concorrência dos evangélicos protestantes que atraíam os convertidos oferecendo muitos bens e serviços. Assim surge uma ampla concorrência religiosa nos EUA. (p. 446)
- Os sociólogos Roger Finke e Rodney Stark, inspirados na economia neoclássica que descreve a história religiosa americana como forma de mercado social para os membros, foram defensores de um paradigma emergente na sociologia da religião que enfatiza o papel da competição entre as denominações religiosas durante este período histórico americano. (p. 446)
- Quando as seitas de sucesso são transformadas em igrejas elas deixam de crescer e começam a diminuir gradativamente. Implícitas estão as necessidades espirituais dos membros. Se essas organizações proíbem ou condenam a vida material dos membros elas também estão condenadas ao fracasso. (p. 446)
- O Estado e o mercado não ofereciam outros serviços, então as congregações religiosas adotaram estratégias formando clubes e sociedades fornecendo clubes e sociedades que ofereciam certos benefícios. O final do século XIX foi uma época de prosperidade econômica e vida atormentada das entidades religiosas. Muitas entidades religiosas criaram organizações destinadas a encontrar um equilíbrio entre as demandas de Deus e as dos homens. (p. 447)
- A tradição anglo-americana religiosa de assistência beneficente estabeleceu organizações fraternas de capital, como auxílio doença e seguro funeral, serviços questionáveis pela “vontade de Deus”. Com a separação constitucional entre Estado e Igreja no final do século XIX, as entidades religiosas enfrentaram grandes desafios o financiamento dos seus empreendimentos e no recrutamento e filiação de membros devido à concorrência religiosa. (p. 447)
- Este artigo é uma breve análise histórica dos vários exemplos de características da vida religiosa americana. É um trabalho com a investigação focada em fontes primárias de Boston e São Francisco, concentrado na economia política da concorrência interdenominacional, concentrado na proliferação de associações mútuas coletivas, de benefício de seguro. (p. 447)
- O desenvolvimento americano de um mercado religioso fomentou um clima de voluntarismo competitivo prestado aos cidadãos, antagônico ao controle do Estado. Os eleitores americanos demoraram a conquistar o seguro social como uma função governamental. Quando isso finalmente aconteceu, a assistência fraterna mútua foi rapidamente abandonada. (p. 448)

ESTE MUNDO E O PRÓXIMO: SEGURO DE VIDA COLETIVA PARA CORRELEGIONÁRIOS

- Os últimos ritos e um enterro apropriado era uma questão importante, especialmente nas cidades, no final do século XIX. No velho mundo europeu, o pagamento obrigatório do dízimo previa auxílio nos enterros e na aquisição de cemitérios próprios. Nos EUA, as comunidades religiosas sem qualquer auxílio do Estado, tiveram que encontrar por si mesmas, locais adequados para os enterros. Além disso, as exigências para um enterro adequado acentuavam-se diante das dificuldades financeiras das famílias das classes trabalhadoras. A morte tornou-se preocupação. (p. 448)
- Uma opção era o seguro de vida comercial, mas só os ricos tinham acesso. Os menonitas ameaçavam de excomunhão quem fizesse o seguro e os ministros luteranos e episcopais eram compra a prática e comparavam o seguro de vida com jogar na loteria. O seguro de vida era a negação do Evangelho que dizia: “Deus vai prover”. (p. 449)
- A companhia de seguros mais antiga das colônias americanas era o Fundo dos Ministros Presbiterianos da Filadélfia, fundada em 1759, para benefício dos clérigos. Logo após, em 1769, foi fundada a Corporação Episcopal Protestante, também na Filadélfia. (p. 450)
- O verdadeiro nascimento de um seguro de vida voluntário sem fins lucrativos começou depois da guerra civil. As sociedades fraternas de auxílio mútuo foram formalmente reconhecidas como instituições sem fins lucrativos. Em alguns aspectos, eram modelos Tocquevillianos por excelência. (p. 450)
- A nomenclatura das próprias organizações pretendia evitar o estigma do seguro. A beneficência fornecia além do seguro para o enterro, um pequeno pagamento para os familiares do morto. (p. 451)
- O senso comum das palavras “caridade” e “beneficência” mudara dramaticamente. Judeus e católicos criaram esses “seguros de vida” beneficentes, que além de oferecer o seguro comercial, ofereciam também espaços de lazer para os membros. É difícil avaliar a frequência do benefício mútuo nas comunidades protestantes. (p. 453)
- Segundo Richard De Raismes Kip, algumas sociedades são restritas a judeus, outras a luteranos, outras a batistas e católicos. Mas em algumas, basta ser cristão. Apesar disso, a fé cristã muitas vezes não é o suficiente. Precisa-se que os membros sejam ativos na comunidade e tenham um caráter moral aceitável. (p. 454)
- Em 1890 foi fundada a primeira sociedade fraterna de mulheres: a Associação Beneficente Católica, mas muitos alegavam que as mulheres não precisavam de seguro de vida. (p. 454)
- Havia dois problemas no modelo beneficiário fraterno:
1) Financiar seguro de vida e auxílio doença em escala pequena e não profissional;
2) O modelo não prevê cobertura universal para todos os membros. (p. 455)
- Bem-estar significava satisfação das necessidades espirituais. O aoutor fala sobre a criação de Orfanatos. (p. 456)

A ECONOMIA POLÍTICA DE COMPETIÇÃO INTERDENOMINACIONAL

- Assim como a vida econômica e social se expandiu nas cidades no final do século XIX, a vida religiosa também se expandiu. Também foram criados clubes e outros tipos de associações religiosas. (p. 457)
- Metade das crianças desamparadas eram cuidadas por não católicos. (p. 459)
- São necessárias mais pesquisas em diversas áreas relacionadas a este assunto. Os benefícios materiais descritos aqui, na verdade, desempenharam um papel válido no recrutamento e retenção de membros de igrejas rivais e congregações e os representantes das diversas religiões "concorrentes" também acabaram interagindo de certa forma. (p. 461)