quarta-feira, 15 de maio de 2013

RESENHA DO LIVRO: "A HISTÓRIA OU A LEITURA DO TEMPO", DE ROGER CHARTIER

CHARTIER, Roger. A história ou a leitura do tempo. 2.ed. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2010.

Roger Chartier em A história ou a leitura do tempo faz uma análise em 9 capítulos, sobre a historiografia nas últimas décadas, levando em consideração a chamada crise da história, abordando as questões relacionadas com a micro-história, a história global e a história na era digital. Ao falar nas mutações da disciplina histórica pós 1988, Chartier lembra que até esta data dominavam duas formas da chamada história cultural: a história das mentalidades e a história quantitativa e que ele propõe novos modelos para superar essas duas formas. Também cita obras de três autores: Paul Vayne (1971), Hayden White (1973) e Michel Certeau (1975), para analisar as dimensões, retórica e narrativa da história. Segundo ele, ao levantarem questões sobre o que é a história, como é pesquisada e escrita, esses autores acabam por anunciar uma crise que viria ocorrer nos anos 1980 e 1990. Antes de mais nada, é preciso dizer que A história ou a leitura do tempo é uma continuação das reflexões iniciadas em À beira da falésia (1998), onde Chartier tenta responder à essa suposta “crise da história”, pois assim como outros historiadores percebe a necessidade de uma resposta às criticas que colocam a cientificidade histórica à prova. Segundo Ginzburg prova e retórica não são antinômicas e estão indissociavelmente ligadas e desde o Renascimento a história soube através de técnicas separar o verdadeiro do falso. Apoiado nessa idéia de Ginzburg, Chartier procura responder à concepção da história transformada em mero texto literário, colocada como uma falsa ciência: “reconhecer as dimensões retórica ou narrativa da escrita da história não implica, de modo algum, negar-lhe sua condição de conhecimento verdadeiro, construído a partir de provas e de controles.” (p. 13) Chartier também aborda as concepções como o paradigma indiciário e a micro-história, trabalhadas por diversos autores, numa tentativa de retomar o valor e cientificidade da história: “Todas essas perspectivas, por mais diferentes que sejam, se inscrevem em uma intenção de verdade que é constitutiva do próprio discurso histórico.” (p. 14) Seguindo o texto, Chartier passa a abordar os conceitos de história e memória, e apoiado na obra de Paul Ricoeur, relaciona três diferenças entre os conceitos. Fala do questionamento existente à representação da história, pela distância entre o passado representado e as formas de discurso que o representam, e torna a defender a verdade da disciplina histórica citando as propostas de Ricoeur para distinguir as fases da operação historiográfica: o estabelecimento da prova documental, a construção da explicação e a colocação em forma literária. (p. 23) Em seguida busca aprofundar a distinção entre história e ficção: enquanto a ficção informa o real, a história representa. Fala ainda sobre a cultura popular e a cultura letrada, e sobre a história global, que rejeitava o marco de Estado-Nação e os recortes tradicionais e o enfoque micro-histórico, o que dificultava as práticas de historiadores. Por último, ele faz uma abordagem sobre a história na era digital e seus desafios e finaliza abordando a capacidade da história em distinguir e articular os diferentes tempos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário